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Louco por motos

MotoGP - Grande Prêmio de Aragón - 25/09/2016

por Mário Sérgio Figueredo, em 24.09.16

Neste domingo (25/9) de sol no circuito espanhol MotorLand Aragón, vimos duelos eletrizantes tanto nas primeiras colocações como nas posições intermediárias. Um show de corrida com ultrapassagens espetaculares, culminando com mais uma vitória de Marc Márquez (Repsol Honda Team), à frente de um duelo incrível entre os pilotos da Movistar Yamaha MotoGP, Jorge Lorenzo e Valentino Rossi, que resultou em vantagem para o atual campeão mundial.

MotoGP_Marquez_25_09.jpg

 Rossi empina a moto ao cruzar a linha de chegada no GP de Aragón

Marc Márquez largou da pole mas perdeu a liderança para Maverick Viñales (Team Suzuki Ecstar) ainda na primeira volta, posição quer recuperou no início da segunda volta após ultrapassagem espetacular sobre Viñales. Entretanto, Márquez errou na terceira volta, perdendo a tangência, sendo projetado para a quinta posição e obrigado a iniciar uma intensa corrida de recuperação.

 

Na quinta volta Rossi consegue ultapassar Lorenzo e abre a temporada de caça ao líver Viñales. Enquanto isso, na sexta volta, Márquez ultrapassa Lorenzo e assume a terceira posição. Na oitava volta Rossi assume a ponta em uma ultrapassagem arrojada sobre Vinãles, que ali começava a ser superado e empurrado para posições inferiores, sendo ultrapassado logo depois por Máques.

 

Na volta dez, Márquez gruda na rabeta de Rossi até conseguir ultrapassá-lo na volta seguinte, para assumir a liderança e abrir praticamente 3 segundos de vantagem. Atrás Rossi e Lorenzo se degladiavam em uma intensa batalha pela segunda posição. A duas voltas do final, Rossi consegue a ultrpassagem sobre Lorenzo, mas perde a tangência da curva, dando condições para Lorenzo abrir larga e confortável vantagem até cruzar a linha de chegada e sendo relegado ao degrau mais baixo do pódio.

 

Maverick Vinãles, que liderou no início da prova, chegou em quarto, com quase 5 segundos de vantagem para Crutchlow, em quinto. Dani Pedrosa, Aleix Espargaró, Pol Espargaró, Alvaro Bautista e Stefan Bradl completaram o Top 10. De todos que alinharam no grid, somente Tito Rabat não completou a prova.

 

Com a vitória de hoje, Marc Márquez abre 52 pontos de vantagem para o segundo colocado Valentino Rossi, faltando apenas quatro corridas para o encerramento da temporada.

 

O próximo encontro da MotoGP™ será no dia 16 de outubro para o Grande Prêmio do Japão, no Circuito de Montegi. 

 

Resultado da corrida

MotoGP_Corrida_25_09.jpg

 

Situação do campeonato - MotoGP™ 

MotoGP_Campeonato_25_09.jpg

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Outros resultados

Moto2_Result_25_09.jpg

 

Sobre o Circuito de Aragón

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A ultra moderna pista Motorland Aragón nasceu graças a uma história de corridas de rua em Alcañiz, pista utilizada entre 1963 e 2003, mas que não oferecia as condições de segurança que a rápida evolução dos automóveis apresentavam em termos de potência e velocidade. Em razão disso, surgiu a proposta de construção de um complexo desportivo dedicado ao automobilismo.

Com o apoio de instituições locais, o renomado arquiteto alemão Hermann Tilke, foi contratado para projetar a instalação. O circuito, de 5,077 km e 17 curvas, foi elogiada por pilotos após seu primeiro Grande Prêmio em 2010, e foi condecorado com o título de Melhor Grande Prémio daquele ano, tornando-se o primeiro circuito a receber tal honraria em seu ano de estréia.

 

MotoGP_Dorna_Rodape.jpg

 

Copyright by Dorna

Estradas Fantásticas: Passagem de Tianmen – China

por Mário Sérgio Figueredo, em 08.07.13

Em setembro de 2011 o mundo ficou conhecendo um lugar fantástico da China, até então desconhecido, quando foi divulgado um vídeo em que Jeb Corliss, utilizando uma roupa-asa, saltou de um helicóptero e atravessou planando um grande buraco em uma pedra situado na Montanha Tianmen, no Parque Nacional de Tianmen Mountain, Zhangjiajie, no noroeste da província de Hunan, China, local onde está instalado o “teleférico de passageiros em montanha mais longo do mundo”, com 98 carros, comprimento total de 7.455 metros e subida de 1.279 metros.

 

Jebb Corliss passa planando pela Caverna Tianmen com sua roupa-asa


Além do teleférico – ou planando como fez Jeb Corliss -, existe outra forma de se chegar ao topo da montanha, que é utilizando-se uma estrada que leva os visitantes para a Caverna Tianmen, como é chamado o buraco natural na montanha, com altura de 131,5 metros, em cuja base há um grande templo construido originalmente na Dinastia Tang (618 a 907 DC). Hoje uma construção mais recente ocupa o local que recebe anualmente uma legião de turistas que vai até lá atraído também pela oportunidade de caminhar muitos quilômetros em passarelas suspensas nas altura, fixadas nas paredes da montanha, que inclui até piso de vidro que dá a exata noção da altura dos precipícios.


Quilômetros de passarelas que permitem caminhar nas alturas; em alguns pontos o piso é de vidro


Mas vamos ao que realmente interessa, a Passagem Tianmen, estrada que por si só já é uma atração que justifica a visita à montanha Tianmen. São apenas 11 quilômetros e 99 curvas fechadíssimas, pois seu leito serpenteia nos paredões de pedra da montanha, verdadeira obra de arte da engenharia chinesa, construída em oito anos – 1998 a 2006. É o tipo de estrada em que o piloto (ou motorista) não pode desconcentrar de forma alguma, sob o risco de morte ao cair pelas altas encostas às margens do caminho. Lembra muito a nossa Serra do Rio do Rastro, localizada nas Serras Catarinenses.


Em seu ponto mais sinuoso essa estrada lembra a nossa Serra do Rio do Rastro


Viajar por essa estrada seria o sonho de qualquer motociclista, suas curvas são um convite tentador para se conhecer a China, lugar recheado de estradas fantásticas, como o Túnel de Guoliang.

 

O difícil relevo da região exigiu muita criatividade dos engenheiros chineses


Localização geográfica:

 

Serra do Rio do Rastro, lugar que todo motociclista deve conhecer

por Mário Sérgio Figueredo, em 25.11.12

Talvez a Serra do Rio do Rastro esteja para os brasileiros tal qual a Rota 66 está para os americanos; um lugar fantástico, que merece estar no roteiro de viagens de todo motociclista

 

Se há no Brasil algum lugar que inspire qualquer motociclista a fazer uma viagem daquelas que ficam marcadas para sempre na memória, esse lugar é, sem dúvida, a Serra do Rio do Rastro. Essa estrada liga Lauro Müller a Bom Jardim da Serra e São Joaquim e faz parte da região turística das Serras Catarinenses, terra privilegiada pela natureza, tanto pelo relevo e rios quanto pela vegetação serrana exuberante.


A parte espetacular da estrada tem apenas 6,6 km de extensão, mas faz a viagem valer a pena. Num espaço de pouco mais de 8 km lineares, sobe-se aproximadamente 670 metros, chegando-se aos 1.421 metros acima do nível do mar (altitude do mirante).


Imagem aérea que mostra o leito sinuoso da Serra do Rio do Rastro

 

A Serra do Rio do Rastro era originalmente o caminho dos tropeiros e sua mulas, que transportavam mercadorias da região litorânea catarinense até às cidades localizadas sobre o planalto, como São Joaquim e Lages. Na volta os tropeiros transportavam a produção local até à capital. Conta a história que a trilha era de muito difícil passagem, sendo comum a perda de mulas que caiam nos precipícios da encosta.

 

Serra do Rio do Rastro


Alem da Serra o Rio do Rastro, o turista motociclístico tem inúmeras outras opções de locais para conhecer, principalmente os localizados no município de Urubici.


O que visitar em Urubici

 

Serra do Corvo Branco, estrada construida apenas com trabalho braçal

Serra do Corvo Branco, estrada construida apenas com trabalho braçal


Serra do Corvo Branco

O município de Urubici, “pássaro brilhante” no idioma xokleng, tribo que habitava a região, oferece uma diversidade de relevo que o transformaram num dos paraísos do turismo de aventura no país. Programas do gênero não faltam. Pode-se fazer descida de rapel nas cachoeiras e paredões, canoagem em um dos rios da região – há dezenas deles -, cavalgadas por caminhos deslumbrantes e caminhadas por trilhas com variados graus de dificuldade.

Serra do Corvo Branco


A cidade oferece paisagens inesquecíveis como a vista da Pedra Furada a partir do Morro da Igreja, a 1.808 metros acima do nível do mar, ou cascatas como a do Avencal e a Véu de Noiva – duas entre nada menos que 82 quedas d’água catalogadas no território do município.


Uma vantagem de Urubici é que boa parte das atrações está na mesma direção, entre os 30 km que ligam o centro da cidade à lendária Serra do Corvo Branco. É um passeio imperdível, cujo encanto não está apenas nas belezas da natureza, mas no contato próximo com os costumes do morador local.

 

Trecho da estrada no meio da pedra, construido numa época em que não existiam máquinas

A Serra do Corvo Branco é um capítulo que merece menção especial nessa reportagem pela sua majestade e beleza. É outra estrada encravada no paredão de pedra, tão ou mais espetacular que a Serra do Rio do Rastro, tendo sido construída apenas com a utilização de ferramentas comuns, como pás, picaretas e dinamite, sem deixar de citar o trecho que chamam de “pedra cortada” (foto ao lado), obra também executada apenas com trabalho braçal.


Esse ponto turístico tem, obrigatoriamente, que fazer parte do roteiro motociclístico de quem vai conhecer aquela região. Cabe aqui uma ressalva: se o turista for de moto custom ou esportiva, certamente vai sofrer um pouco nos 5 km de estrada de chão muito mal conservada e cheia de pedras e buracos que se usa para chegar até lá – inimaginável o descaso da prefeitura local com a via de acesso a um ponto turístico tão atraente.


A região oferece estradas bem conservadas, refeições a partir de R$ 13,00 e rede hoteleira para todos os gostos e bolsos; a partir de meros R$ 40,00 já se consegue hotel de qualidade aceitável, com quartos espaçosos, lençóis limpos e banho quente. Mas recomenda-se reservar com antecedência pois, em períodos de férias ou feriados prolongados, a região costuma ser bastante procurada por turistas e os hotéis lotam com facilidade.


Caso queira conhecer todas os pontos citados nesta reportagem, reserve pelo menos dois dias inteiros, apenas para conhecer as maravilhas de Urubici e a Serra do Rio do Rastro.

 

Mesmo não sendo pedagiadas, as estradas da região encontram-se bem conservadas

 Mesmo não sendo pedagiadas, as estradas da região encontram-se bem conservadas 

 

Morro da Igreja e Pedra furada, 1808 metros acima do nível do mar

 Morro da Igreja e Pedra furada, 1808 metros acima do nível do mar

 

Como chegar aos principais pontos turísticos

Como chegar aos principais pontos turísticos



Fonte: Secretaria de Turismo do Estado de Santa Catarina, Prefeitura Municipal de Urubici, Prefeitura Municipal de Lauro Muller - Foto aérea: Prefeitura Municipal de Lauro Muller - Texto e demais fotos: Mário S. Figueredo

A culpa é do jegue?

por Mário Sérgio Figueredo, em 10.10.12

Uma visão realista sobre os índices de mortalidade de motociclistas nas regiões Norte e Nordeste do país

 

Nas cidades do interior, o jegue está sendo substituido pelas motocicletas


Tem uma história na web que conta a trajetória do Severino, um senhor nordestino, analfabeto, cujo ganha-pão era afiar facas e consertar panelas em domícílio, com seu equipamento, um rebolo de pedra, instalado na sela de um jegue. Indo de casa em casa, Severino garantia o seu sustento.

No final do dia de trabalho, geralmente causticante pelo terrível sol nordestino, Severino passava em um boteco no caminho de casa e tomava as suas pinguinhas. Depois de várias, já alterado pela bebida, Severino montava em seu jegue e este já sabendo o caminho de casa, conduzia Severino com segurança até sua morada.

Com a popularização e a facilidade de aquisição das motocicletas, Severino também aderiu à moda e comprou a sua motoca; instalou o rebolo no bagageiro e continuou prestando o mesmo serviço à população da sua região.

Acontece que Severino não perdeu o hábito de passar no boteco para as pinguinhas diárias no final da tarde, e não tomou consciência que diferente do jegue, a moto não o levaria para casa sozinha.

A história do Severino reflete exatamente o que vem acontecendo nas regiões norte e nordeste brasileiro, com a substituição contínua dos animais de transporte e tração pelas motocicletas, entretanto, sem que a população receba preparo para fazer frente a essa mudança radical nos hábitos regionais.

O gráfico abaixo registra a distribuição geográfica de motocicletas em nosso país, dados de 2011 expedidos pelo Denatran:


32% da frota de motocicletas está nas Regiões Norte e Nordeste


O que esta acontecendo é que a população interiorana dessas regiões vem comprando motocicletas em grande escala – em sua maioria, as de 125cc – e as usando no lugar dos jegues, sem o menor preparo ou estarem habilitados, já que grande número desses motociclistas não sabe ler e escrever, exigencia do Código de Trânsito Brasileiro em seu Capítulo 14, Artigo 140, Inciso II para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação.


Pelas estatísticas da Abraciclo, nestas regiões o número de motocicletas é muito superior ao número de motociclistas habilitados na categoria A, o que evidencia a afirmação citada no parágrafo anterior (vide gráfico).

Os dados apontados nesse gráfico são alarmantes, veja o caso do estado do Maranhão, onde o número de motocicletas supera em 222% o número de habilitados na categoria A. Na sequência vem os estados do Piauí com 178% e Ceará com 157%.

Para complicar ainda mais a situação, há uma total indiferença dos órgãos que deveriam coibir a utilização de motocicletas por cidadãos que não estejam habilidados e preparados. O que se vê nas cidades do interior dos estados em geral, não só os do norte e nordeste, é o total desinteresse das autoridades de trânsito em coibir o uso de motocicletas sem as condições mínimas de circulação e a sua utilização por pessoas não habilitadas. Comum ver em documentários da TV sobre o tema, motocicletas sendo conduzidas por pessoas sem capacete, utilizando chinelos de dedo, transportando menores de 7 anos e ausência total de equipamentos de segurança.

O transporte de crianças menores de 7 anos tem sido uma catástrofe em alguns estados nordestinos. Segundo dados fornecidos pelo site da ABETRAN – Associação Brasileira de Educação de Trânsito, 25% dos 60 leitos reservados para crianças no maior hospital de emergência do nordeste estão ocupados por vítimas de acidentes de motos. O Código de Trânsito diz que conduzir motocicleta, motoneta ou ciclomotor transportando criança menor de sete anos ou que não possa cuidar da própria segurança é infração gravíssima. A multa é de R$191,00 mais sete pontos na carteira de habilitação. Mas de que vale a lei se não há fiscalização e nem punição para os infratores?
 

Adultos conduzem os menores sem capacete, com três (ou mais) pessoas em uma moto, com crianças espremidas no meio ou sozinhas na garupa. Vitória, dois anos, é uma das vítimas da imprudência. Ela estava na moto com o pai e uma tia, quando eles bateram em outra moto. A menina teve uma fratura no fêmur e está há mais de um mês no Hospital da Restauração.

O tempo médio de permanência dos pacientes na Restauração é de 7 a 11 dias. Crianças dificilmente ficam internadas menos de 45 dias e, muitas vezes, permanecem imobilizadas, entre uma cirurgia e outra.

Rafael, outro menor acidentado, já passou por quatro cirurgias. Está vivendo no Hospital há sete meses. Fraturou as duas pernas, o fêmur, um braço e a bacia e não consegue andar. Estava na moto com o irmão e uma menina de 12 anos. Todos sem capacete. Os outros dois morreram.

Segundo dados do Ministério da Saúde, quase metade dos gastos do Sistema Único de Saúde (SUS) com vítimas de acidentes de trânsito no Brasil foi destinada ao atendimento de motociclistas em 2011. De acordo com levantamento do Ministério da Saúde, foram investidos 48,07% de aproximadamente R$ 200,3 milhões. Um dos motivos é o aumento de 95,32% nas internações de motociclistas acidentados entre 2008 e 2011.

No mesmo período, os gastos no atendimento a usuários de motocicletas cresceram 113% em todo o País. A região Norte é a que registra o maior percentual de gastos: 68,65% dos cerca de R$ 7,6 milhões investidos no ano com pacientes que sofreram acidentes foram destinados aos motociclistas. No Pará, eles foram responsáveis por 83,77% dos gastos de R$ 3,4 milhões em 2011. O Pará é um Estado ocupado por motos onde o número de acidentes fatais, segundo o Departamento de Trânsito (Detran), cresce a taxas alarmantes de quase 20% ao ano. O número de vítimas, segundo levantamento do departamento, pulou de 378 em 2008 para quase 770 em 2011 e deve chegar a, aproximadamente, 924 até o final deste ano,  obrigando o Ministério da Saúde, através do Sistema Único de Saúde (SUS), a aumentar em quase 113% o repasse de verbas destinadas ao tratamento de acidentados no Brasil: de R$ 45 milhões, em 2008, para R$ 96 milhões no último ano. O secretário de Saúde Pública do Estado, Hélio Franco, dá o parecer sobre o assunto: “É uma epidemia”.

Ano passado, a Sespa (Secretaria Estadual de Saúde Pública do Pará) investiu 20 milhões no tratamento de vítimas de acidentes envolvendo motocicletas. De acordo com Hélio Franco, o Estado gasta por mês R$ 500 mil apenas no transporte de pacientes com traumatismo, a maioria proveniente de acidentes com motos. Muitos acidentados ganham direito à aposentadoria por invalidez, de saúde e familiar.

Entre os Estados, esse percentual só não é maior do que o do Piauí, onde 84,26% dos cerca de R$ 3 milhões destinados a vítimas do trânsito no Estado foram usados para atender pessoas acidentadas que estavam em motos. O Nordeste também tem o estado que teve o maior aumento nos gastos nos últimos quatro anos. Em Pernambuco, o custo subiu 1.286% de 2008 a 2011, passando de R$ 184 mil para R$ 2,5 milhões.

O excesso de velocidade, o consumo de bebida alcoólica antes de dirigir e a imprudência são apontados pelo ministério como fatores que têm contribuído para o aumento de acidentes envolvendo motociclistas. O incremento na frota de veículos também é responsável pelo crescimento das estatísticas nada animadoras.

O que está acontecendo é uma verdadeira carnificina, com pessoas morrendo diariamente apenas por pilotarem sem estar preparadas. O que causa estranheza é a indiferença das autoridades pois essas estatísticas assustadoras já deveriam ter desencadeado medidas para conter essa escalada de mortes entre motociclistas.

Onde estão as autoridades de trânsito das cidades do interior? E a vontade política dos prefeitos e governadores? O que estão fazendo as polícias rodoviárias Estaduais e Federal? Cadê os representantes dos Ministérios Públicos dos Estados que não exigem atuação mais presente dos prefeitos, Detrans, Contran e Denatran? Quais ações estão sendo executadas pela Abraciclo? Por um número insignificantemente menor de mortes nas favelas do Rio, houve a mobilização da Guarda Nacional. Por que não acionar esse mesmo contingente de policiais para intervir nas cidades onde há clara omissão das autoridades de trãnsito e fazer com que seus prefeitos sejam punidos pela omissão?

No II Workshop Abraciclo realizado em 2011 em São Paulo, Walter Kauffman Neto, engenheiro, consultor e perito especialista em acidentes de trânsito, disse que a educação, fiscalização e punição são os fundamentos do caminho a ser seguido para solucionar os problemas de acidentes no trânsito em nosso país. Como aplicar esses fundamentos sem ter polícias fiscalizadoras de trânsito nas pequenas cidades? Essa é a questão.

Diante dessa abordagem, conclui-se que o problema é sério,  real e carece de ações concretas imediatas, recorrendo-se à vontade política e policiamento ostensivo. Basta as autoridades de trânsito cumprirem suas obrigações constitucionais (municipais, estaduais e federal) que o número de mortes entre motociclistas tende a cair a níveis aceitáveis pela Organização Mundial de Saúde – OMS.

E respondendo à pergunta no título, a resposta é NÃO, o jegue não tem culpa nenhuma, pelo contrário, tornou-se também vítima por estar obsoleto. E está sendo dizimado.


Por Mário Sérgio Figueredo

 

Colaboração: Jornalista Luiz Sucupira, Abraciclo, Diário do Pará e Portal Motonline

Um motociclista na “prisão”

por Mário Sérgio Figueredo, em 28.07.12

Certamente quando o amigo leitor acessa sites blogs de motociclismo quer ver testes dos recentes lançamentos no mercado, viagens e aventuras bem sucedidas realizadas por motociclistas destemidos e notícias curiosas do mundo motociclístico; é o que chamamos de LADO BOM do motociclismo.

 

Entretanto como tudo nessa vida, o mundo motociclístico tem também o LADO RUIM, os constantes acidentes de trânsito envolvendo as motocicletas e seus pilotos, que normalmente sofrem lesões sérias.

 

Estamos acostumados a ter contato com esse LADO RUIM através da mídia, que noticia diariamente acidentes, muitos deles fatais e a grande maioria envolvendo traumas nos garupas e pilotos.

 

Se o motociclista acidentado não for do nosso círculo de amizades ou familiar, esse contato se resume a ler a notícia, ficar apenas momentaneamente indignado e consternado. Pouco depois a notícia cai no esquecimento e tudo volta ao normal, a vida continua.

 

Só que muita coisa acontece depois do acidente, coisas às quais não temos conhecimento e não vivemos esse drama.


 

Como eu passei por uma situação dessas, vou relatar a seguir como foi o período de recuperação da lesão que sofri, fratura da tíbia e fíbula da perna direita. Vamos lá, prepare-se para conhecer esse LADO RUIM do motociclismo, cujo risco nos acompanha cada vez que desfrutamos do  indescritível prazer de andar de motocicleta, que sempre foi uma atividade de alto risco, fato do qual todos temos consciência. Isso devido a diversos fatores como motoristas (e mesmo motociclistas) mal preparados, condições adversas de trânsito, “armadilhas” inesperadas como óleo na pista, tampas de bueiro mal colocadas, faixas pintadas com tinta inadequada e uma outra infinidade de fatores de risco. Temos que pilotar com os sentidos totalmente aguçados pois a qualquer momento estamos sujeitos a passar por alguma situação de acidente, que normalmente nos deixa sequelas, já que nosso corpo não tem a mesma proteção  que os carros ou veículos maiores oferecem.

 

A situação que vou relatar neste texto aconteceu comigo em 24/11/2011, dia do meu aniversário de casamento, por volta de meio dia:

 

Saí de moto para resolver um problema num local próximo à minha casa, vestindo capacete, calça jeans, bota e jaqueta de couro – como estava calor, não estava usando luvas. Na rua em que eu seguia tem uma curva fechada cuja visão é bloqueada por uma construção irregular que avança pela calçada, bem próxima à via de rolamento. Quando entrei na curva a uns 40 km/hora me deparei com duas meninas com seus 10 ou 11 anos tentando atravessar a rua, bem no ponto cego. Ao me verem elas se assustaram e correram em direções diferentes me obrigando a frear forte. A minha reação foi normal e esperada, considerando os meus 35 anos de pilotagem praticamente sem acidentes ou incidentes. Para meu azar bem por onde eu passava havia areia sobre o asfalto, o que provocou perda de aderência do pneu dianteiro e o chão foi inevitável. Tombinho simples, daqueles em que bastaria levantar a moto e seguir em frente.

 

Só que não foi bem assim; instintivamente coloquei o pé no chão, momento em que a bota altamente abrasiva “agarrou” no asfalto provocando a torção da minha perna. Caí sob a moto, protegendo-a de danos maiores – por ser uma Sahara, nem quero pensar no estrago que uma ralada qualquer viria a provocar na sua grande carenagem – em seguida já pude ver o meu pé direito numa posição impossível, evidenciando uma fratura. Alguns populares retiraram a moto que estava sobre mim e chamaram o SIATE.

 

Fui conduzido para o Hospital do Trabalhador em Curitiba e encaminhado ao serviço de emergência, uma grande sala onde eu, sobre uma maca, compartilhava o ambiente com umas outras 30 pessoas sendo atendidas por vários motivos como atropelamentos, ferimentos por arma de fogo e, principalmente, ACIDENTES DE MOTO. Pelo menos metade dos atendidos estavam ali por causa da moto.

 

Constatou-se na minha perna a fratura da tíbia e fíbula, agravado pelo estilhaçamento vertical da tíbia – a tíbia teve 3 rachaduras que se projetavam do meio do osso até  o calcanhar. No mesmo dia passei por uma cirurgia para instalação de um estabilizador – ferragens externas com a finalidade de fixar o pé com a perna, evitando que movimentos possam vir a cortar músculos ou veias – que me acompanharia até a instalação de uma prótese interna, peça que demoraria alguns dias para ser adquirida.

 

Por se tratar de uma peça importada e muito cara (R$ 9.000,00, custeada pelo SUS), Somente no dia 4/12 a peça chegou e no dia seguinte fui operado para a instalação da prótese, ou seja 11 dias após o acidente.

 

Durante esses 11 dias fiquei instalado em uma enfermaria com mais 2 pacientes, um recuperando-se de ferimento a bala e outro com o pé necrosado em decorrência de diabetes. Todas as noites foram acompanhadas de intenso carlor do verão curitibano, gemidos e choro provenientes de outras enfermarias, corre-corre de enfermeiros para atender casos de pacientes em crise, luzes acesas nos corredores, sem contar o fato de que eu não podia mexer muito a perna lesionada, o que me obrigou a dormir (ou tentar) na posição de costas, que me é bastante desconfortável. Cada vez que eu precisava ir ao banheiro era uma operação de guerra que envolvia 3 ou mais enfermeiros para me colocar na cadeira de rodas e me auxiliar no vaso sanitário. Tomar banho então, nem se fala, mesmo com o uso da cadeira apropriada para esse fim, era outra operação que exigia pelo menos 2 enfermeiros.

 

Durante todo esse período não senti dores, talvez porque passei praticamente todo o tempo dopado pelo efeito de tranquilizantes – injeções de morfina na veia eram constantes. Mas asseguro ao leitor que ficar esses dias no hospital foi uma grande tortura física e psicológica.

 

Apenas 3 dias depois da cirurgia para instalação da prótese que me acompanha até hoje eu já recebia alta hospitalar, indo para minha casa.

 

Pois foi a partir daí que a coisa complicou:

 

A perna fraturada não permite movimentos pois a dor da fratura mais a dos músculos magoados impede que se tenha mobilidade – no hospital tem um exército de enfermeiros e se for preciso te carregam para onde for – mas em casa a situação era outra, dependia da minha esposa para tudo, exigindo-lhe dedicação integral. Para a realização de coisas simples eu dependia dela; tomar banho, ir ao banheiro, levantar e me transferir para uma cadeira, me locomover de um lugar para outro, fazer o curativos diários nas lesões decorrentes dos cortes para instalação da placa metálica no osso fraturado, tudo era uma maratona – tive até que instalar barras horizontais de sustentação nas paredes do WC e box do meu banheiro. Só com muito amor alguém consegue superar o calvário ao qual minha esposa foi submetida durante os primeiros 4 meses da minha recuperação e por isso jamais, jamais eu conseguirei retribuir à altura o carinho com que ela me tratou nesse terrível período de recuperação.  

 

Achar uma posição na cama para dormir era uma tortura, sair de casa então, era muito complicado e só foi amenizado porque um amigo me cedeu uma cadeira de rodas que passei a usar praticamente o dia inteiro durante mais de 3 meses – a cadeira de rodas, apesar de todos os benefícios oferecidos tornou-se a minha prisão, passei a depender dela para tudo – ainda bem que conseguia passar com ela nas portas do meu apartamento.  As muletas ainda não eram úteis porque minha baixa resistência física aliada ao meu coração debilitado, me impingiam extremo cansaço – andar de muletas é muito cansativo e exige um bom vigor físico.

 

Em meados de março/2012 minha resistência física e cardíaca melhorou muito e pude começar a andar de muletas com mais desenvoltura, o que me deu mobilidade para poder iniciar passeios no pátio e arredores do prédio onde moro, mas sempre em curtos percursos de no máximo uma quadra.

 

Em junho/2012 uma nova conquista; comecei a dirigir. Apesar de ainda não poder andar sem auxílio de muletas o meu pé já oferecia condições de controlar o freio e o acelerador – foi a minha libertação pois pude começar a ir a todos os lugares sem precisar de um motorista, eu podia ir sozinho, acompanhado das muletas ou cadeira de rodas, dependendo do lugar.

 

Foi nesse período que pude sentir na pele como as pessoas portadoras de necessidades especiais são desrespeitadas em nosso país. A vagas a eles destinadas não são respeitadas e, pasmem, em sua grande maioria por pessoas de mais idade, acima dos 50 anos. Os jovens raramente utilizam essas vagas indevidamente.

 

Hoje, mês de julho, 8 meses depois, não dependo mais das muletas, ando sozinho, mas ainda manco bastante pois não readquiri todos os movimentos de equilíbrio do pé. Acredito que serão necessários ainda mais uns 3 ou 4 meses para que tudo volte a ser como antes. Daí talvez tenha que me submeter a nova cirurgia para retirada da placa metálica, mas essa será outra história.

 

Pois é amigos, muita coisa acontece depois daquela notícia que lemos despretensiosamente na mídia, tem muito sacrifício e sofrimento “escondidos”, que a gente não toma conhecimento e sequer consegue dimensionar o grau de transtorno a que nossas famílias são submetidos.

 

Não canso de salientar que sem o apoio da família, de pessoas se dedicando a auxiliar o acidentado durante sua convalescença tudo seria muito, mas muito pior. Agora imagine como é quando o acidentado é um motoboy, trabalhando na informalidade, sem registro em carteira, sem a garantia financeira durante a recuperação. Dá até arrepio só de imaginar.

 

Rezo todos os dias para que nenhum dos meus amigos tenha que passar pelo que eu passei; foi um período infernal na minha vida e nas das pessoas com quem convivo.

 

Mas tudo isso faz parte da vida e, não importa o infortúnio, temos que encarar de frente, com coragem, serenidade e perseverança.

 

 

Por Mário Sérgio Figueredo