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Louco por motos

Sahara, saudade não tem idade

por Mário Sérgio Figueredo, em 11.05.11

Vou contar para vocês como foi a minha aventura para achar a preciosidade que acabei de comprar, uma Honda NX 350 Sahara ano 1999, roxa, com 21 mkm originais de fábrica.

 

Não foi fácil achá-la. Estabeleci como meta uma Sahara anos 98 ou 99 com menos de 25 mkm rodados e em ótimo estado. Com essa referência fui à luta.

Comecei procurando na minha cidade mas as poucas que achei o pessoal pedia muito, algo em torno de R$ 8,5 a 9 mil Dilmas. Me recusei a pagar tanto e resolvi procurar em outras cidades, estendendo minha busca para o moto ponto com, mercadolivre, comunidade da Sahara no Orkut, amigos que procuravam em vários cantos do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Como resultado dessa busca apareceram 4, duas em São Paulo, uma em Cubatão-SP e outra em Alfenas-MG. Resolvi ir vê-las pessoalmente e no sábado embarquei para Sampa à meia-noite e cheguei às 6 horas da manhã. Coloquei minha bolsa num guarda-volumes automático (pesada por causa do capacete, capa de chuva, jaqueta de couro, luvas, tudo acondicionado dentro dela e pronto para ser usado na volta).

Combinei com os donos das Saharas de Sampa que os encontraria no Anhembi mas nenhum dos dois apareceu. Depois fiquei sabendo que um desistiu da venda e o outro vendeu na sexta-feira.

Tomei um café-da-manhã paulistano (pão com manteiga e café com leite no copo americano - que queima a mão :lol: ) e fui ao mercado de carros e motos que funciona no estacionamento do Anhembi no domingo pela manhã (fiquei assustado com os preços da entrada: moto 25 Dilmas, carro 69 Dilmas e caminhão 85 Dilmas, um verdadeiro assalto).

Dentre umas 400 motos à venda, achei apenas 3 Saharas, todas em estado lastimável, deu até dó de ver motos tão maltratadas. Eram muitas motos, de todos os tipos e anos e algumas mexeram comigo e se tivesse podendo gastar um pouco mais teria me abraçado com uma delas: 02 Suzuki Freewind, uma azul e outra prata, lindíssimas e ambas com menos de 20 mkm rodados, a azul por R$ 18 mil e a prata R$ 16 mil, a prata parecia que saia da fábrica naquele instante de tão inteira que estava.

Outra que fiquei apaixonado foi uma Yahaha TDM 850 prata, por R$ 22 mil, moto fabulosa. Assim que eu conseguir colocar minha vida financeira em dia, num futuro bem próximo, eu pego uma dessas.

Fiquei no Anhembi até umas 11 horas e voltei para o terminal Tietê com a decisão de ir até Cubatão e caso não desse negócio, voltaria a Sampa no domingo mesmo e iria para Alfenas naquela mesma noite.

Chegando ao Tietê descobri que o ônibus para Cubatão saia do Terminal Rodoviário Jabaquara. Lá fui eu de metrô - já estava cansado e como a noite anterior (viajando) não foi lá essas coisas, estava difícil ficar acordado.

Cheguei ao Terminal Jabaquara eram 12:50 h com a fome apertando mas resolvi primeiro comprar a passagem para ficar mais tranquilo. Quando achei o guichê da empresa que transporta até Cubatão fiquei sabendo que o ônibus sairia dali a 5 minutos. Foi o tempo de comprar a passagem, embarcar e o ônibus sair - meu estômago teve que esperar.

Cansado, com sono e um ambiente fresquinho por causa do ar condicionado, não deu outra; "garrei no sono". Acordei com o motorista ligando o ônibus e perguntei para o passageiro do banco de trás onde estávamos. Ele respondeu que era Cubatão. Bati na porta e o motorista deixou-me descer - por pouco não fui para Santos (rsrsrsrs).

Logo que desci do ônibus liguei para o dono da Sahara e em menos de 15 minutos lá estava ele (o dono) com ELA (a Sahara) e a noiva dele de carro para me transportar.

Foi amor à primeira vista, pela moto, é claro.

Conversamo por um bom tempo ali mesmo e como estava hipercansado, molhado de suor (com Cubatão é quente, affff); estava eu, com aquele calor todo, de calça jeans grossa, camisa de algodão, meias grossas e botas. Não via a hora de tomar uma ducha e pedi para que me levasse até um hotel que um taxista havia me indicado.

Eles me deixaram no hotel e marcamos que ele retornaria com a moto depois do jogo em que o Corinthians levou um baile do São Paulo.

Só que não deu certo a minha hospedagem, hotel ruim e preço extorsivo - Cubatão tem um enorme número de trabalhadores temporários, bem superior à capacidade dos hotéis e isso faz com que os preços sejam abusivos - coloquei a bolsa nas costas e saí à pé à procura de outro hotel. Andei acho que uns 4 km passando em vários. Por um lapso de sorte cheguei a um recém-inaugurado, bonzinho, por um preço que para os padrões curitibanos era muito alto - R$ 120,00 a diária com ar condicionado, tv por assinatura, ducha e café-da-manhã. Não aguentava mais andar, fiquei nele mesmo, depois de pechinchar e reduzir o preço para R$ 100.

Cheguei no quarto e foi difícil tirar a roupa porque estava ensopada de suor - a camisa eu torci e pingou, parecia que tinha tomado chuva - naquele momento eu estava quase morto.

Fiquei meia hora sob o chuveiro e renasci. Terminado o jogo o dono voltou com a Sahara e aí eu pude olhá-la nos detalhes e andei com ela nos arredores do hotel. Fiquei mais apaixonado ainda. Apesar das ruas terem piso bem irregular a moto não batia nada, não fazia nenhum barulho, nem nas carenagens o que é normal nas Sahara.

Depois disso tentei sem sucesso comer alguma coisa em algum lugar próximo. Fiquei de estômago roncando.

Fechamos negócio e combinamos ir no cartório e ao banco na manhã da segunda-feira. Ao retornar ao hotel puxei pela internet os débitos da moto e estava tudo zerado, o IPVA de 2011 já estava totalmente pago, faltando apenas o DPVAT e o licenciamento.

Voltei para o meu quarto querendo assistir ao Fantástico; só querendo porque acordei somente às 8 horas da manhã do dia seguinte. Dormi com TV e ar ligados e acordei com um frio do cão.

Depois do café, conforme combinado o vendedor chegou com a moto e um amigo de carro. Ao lado do hotel havia uma oficina de motos que o pessoal dizia ser a melhor da cidade - conforme havia previamente combinado com o dono da oficina, deixei a moto lá para uma pequena revisão preparando-a para a viagem de retorno a Curitiba.

 

Moto entregue na oficina fomos até o cartório onde reconhecemos as firmas do vendedor e comprador (como verdadeiras, como exigem os Detran hoje). Na sequência fomos ao banco que para minha surpresa só abriria às 11 horas - bancário paulista é folgado mesmo. Esperamos o banco abrir e finalizamos a transaçao financeira.

Na porta do banco mesmo nos despedimos, não antes do vendedor me entregar um catatau de papéis, chaves reserva e da trava, controles remotos do alarme, manual do proprietário, notas fiscais de todo o histórico de manutenção da moto, todos os documentos anuais desde 1999, itens que me confirmaram que a moto era tratada a pão-de-ló.

Logo em seguida cheguei ao hotel, fechei minha conta, peguei minha mala e fui até à oficina para pegar a moto. Já estava pronta, com óleo conferido, corrente lubrificada e ajustada e cabos regulados.

Numa moto-peças ao lado comprei 2 extensores, prendi a bolsa no bagageiro (a bolsa quase sumiu quando tirei os apetrechos de viagem). Coloquei as luvas e a jaqueta de couro e caí na estrada. parando antes de sair da cidade para encher o tanque.

Resolvi voltar por Itanhaém e Peruíbe, caminho mais curto até à BR-116.

Como não conheço nada naquelas bandas foi difícil achar a saída certa, correndo o risco de ir para Sampa ou Santos caso não acertasse - mal sinalizado bagarai - com o trânsito "parado" devido ao engarrafamento de caminhões que desciam para o porto foi fácil pedir informações a alguns motoristas, até que achei a saída para Peruíbe.

No início eu estava inseguro, afinal faziam 7 longos anos que eu não pegava uma estrada de moto. Comecei entravando o trânsito porque não passava dos 70 km/h. Aos poucos fui ganhando confiança, retomando a experiência de tantos quilômetros rodados outrora. Depois de uns 50 km rodados o velocímetro não baixava de 130 km/h - rsrsrs

Estrada ótima, pista dupla, até depois de Peruíbe quando a pista voltou a ser simples mas o trânsito era insignificante e a estrada era toda minha, raramente cruzava ou ultrapassava outro carro, podia ocupar a estrada inteira para fazer as curvas.

Fica difícil descrever as sensações que eu senti no início da viagem de volta, parece algo que está represado há muito tempo e num só momento as comportas do prazer são abertas e o corpo sofre uma injeção de adrenalina, enforfina e outros inas. Parecia que eu estava drogado com o prazer de novamente pilotar uma moto na estrada, principalmente sendo aquela moto que eu queria.

Apesar do trecho entre Peruíbe e a BR-116 estar com o asfalto cheio de emendas, a suspensão da Sahara nem sentia, afinal é no piso irregular que ela pode mostrar seus predicados, suas qualidades. O pneu dianteiro novinho em folha e o trazeiro com muita borracha ainda agarravam a estrada e em nenhum momento me deram sustos, apesar de eu já estar abusando um pouquinho além do aconselhável nas curvas.

Quando cheguei à BR-116 o asfalto mudou radicalmente, livre de buracos e irregularidades mas em contrapartida o trânsito de caminhões estava bastante intenso. Redobrei a atenção, principalmente nas ultrapassagens e quando um caminhão ultrapassava outro e tomava toda a pista. Para descontrair, quando passava pelos caminhões, dava uma buzinadinha com a medíocre buzina da Sahara e recebia de volta uma sonora resposta de uma corneta a ar, foi muito legal e posso dizer que estava "plantando" pois se lá na frente eu precisasse de ajuda, algum desses caminhoneiros iria parar para me ajudar. Raríssimas motos na estrada, de moto grande lembro apenas de uma "Mônica" que viajava em direção oposta à minha.

Em Registro a minha região glútea começou a reclamar e resolvi fazer um pit-stop básico no Graal para reabastecer a moto e descansar um pouco. Essa parada durou menos de 15 minutos e peguei novamente a estrada. Correu tudo maravilhosamente bem, até São Pedro colaborou e não peguei uma gota de chuva até em casa.

Tomei um susto . . . quando vi uma placa dizendo: Curitiba a 95 km. Caramba, parecia que eu havia acabado de sair de Cubatão e já estava tão perto de casa - em queria que ainda faltassem pelo menos uns 500 km, tamanha era a alegria que eu sentia.

Nesse ponto da viagem a fome bateu valendo, afinal eu não comia nada consistente desde o almoço de sábado. Passei todo esse tempo tomando litros e litros de água. Avistei um lugar simpático e resolvi parar. Já eram quase 17 horas, tarde para o almoço e cedo para o jantar. Pedi ao dono do restaurante um bife com pão que me deliciei acompanhado de 2 garrafas de coca-cola. Não sei se era a fome ou realmente o tempero do bife estava soberbo, comi com gosto e cheguei até a raspar o caldinho do bife com o pão. Descansei uns 20 minutos e novamente voltei à tocada, só parando para telefonar para minha esposa avisando que estava chegando e pedindo para ela abrir o portão automático quando chegasse.

Cheguei com o corpo muito cansado devido à abstinência de tantos anos mas a alma estava leve e queria mais estrada, muita estrada, quem sabe um bate-e-volta até Floripa (rsrsrsrs).

Na viagem pude confirmar a total ausência de ruídos ou peças soltas, ou mal ajustadas na moto, mesmo nos locais onde os remendos no asfalto faziam com que a moto pulasse feito cavalo chucro ela mostrava-se firme e com todos os seus componentes bem firmes e fixados.

O retorno rodando foi ótimo porque depois de quase 450 km rodados já nos tornamos íntimos e começamos a nossa convivência da melhor forma possível, no melhor lugar possível, a estrada.

Enfim amigos, essa foi mais uma experiência inesquecível, daquelas que guardarei na minha memória, de como achei e comprei a minha NONA Sahara, com a qual pretendo ficar um bom tempo, até que consiga comprar outra moto de cilindrada maior.

Quem sabe eu não tenha que buscar essa nova moto bem longe? E o melhor, vir rodando . . .

 

 

 

Foto da Mafalda (apelido carinhoso)

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