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Louco por motos

Companheiros de estrada

por Mário Sérgio Figueredo, em 08.10.08

Há alguns dias,conversando com um amigo no chat motonline, ele relatava-me uma viagem recém-realizada pela sua turma. No seu relato pude perceber que o passeio daquele grupo não trazia boas lembranças, pelo contrário, continha mais dissabores do que diversão e prazer propriamente ditos.

 
Pelo seu relato os desentendimentos começaram antes mesmo da partida, que havia sido marcada para as 07:30 horas da manhã e a despeito de tudo que havia sido combinado em reuniões preliminares com todos os candidatos a viajante, chegou a hora da partida e alguns confirmados não apareceram. Ao ligar para seus celulares souberam que os “amigos” ainda estavam em casa, dormindo, evidenciando total desrespeito com seus futuros colegas de estrada. No final, acabaram saindo às 9 horas, uns bronqueados com os outros o que desencadeou novos acontecimentos desagradáveis no percurso, mas não os abordarei por serem irrelevantes ao tema deste texto.
 
Viajar de moto proporciona um prazer indescritível que somente é superado quando na viagem você está acompanhado daqueles amigos que você preza, respeita e goza da mesma reciprocidade de sentimentos.
 
Só que, até você chegar à conclusão de que determinada pessoa merece o título de “seu amigo”, é uma tarefa demorada de observação e lapidação das arestas complicadoras do relacionamento.
 
O mais comum é encontrar comportamentos displicentes e desinteressados e porisso é muito difícil achar companheiros perfeitos para viagens, quer sejam aquelas breves, de final de semana, ou aquelas mais longas, que demandam maior cumplicidade e preparação. Comum é encontrarmos companheiros de uma única viagem, por vários motivos.
 
Nem sempre os gostos combinam; um gosta de correr mais e se incomoda de manter o rítmo do grupo, não se importando em perder o convívio silencioso da estrada e a alegria de ver o outro à sua frente ou pelo espelho retrovisor; outro tem mais poder aquisitivo e não se sujeita a acampar ou frequentar hotéis e restaurantes mais modestos e adequados ao bolso do restante da turma; outros não gostam de parar para apreciar as coisas bonitas da estrada, e o pior, alguns não dão o necessário auxílio quando alguma das motos quebra no meio da viagem. Enfim, várias coisas conspiram contra quando se busca achar os companheiros ideais, tal qual achar uma namorada em condições de tornar-se esposa. Só depois de muitas viagens, muitas tentativas, se tiver sorte, dá pra escolher parceiros fixos, que realmente sejam companheiros e confiáveis, que haja um mínimo de sintonia de gostos de uma maneira geral. Exigir a perfeição seria querer demais.
 
Mesmo assim, com os passeios e viagens se sucedendo, ainda é preciso ir trabalhando as relações, um cedendo daqui, o outro cedendo de lá e aos poucos cria-se uma convivência agradável e duradoura, que trará benefícios mútuos e ainda deixará muitas fotografias e momentos para relembrar com satisfação e alimentar a expectativa da próxima oportunidade de renovar e fortalecer esses laços de amizade. Comum ver relatos de amizades que nascem dessa forma e duram uma vida inteira, transportando-se da estrada para a convivência familiar.
 
Sempre gostei de viajar em grupo, por prazer e até por segurança no caso de quebra da moto ou até mesmo um pneu furado no meio do nada, mas às vezes as agendas são inconciliáveis e quando você pode viajar eles não podem ou quando eles podem, você é que está ferrado no trabalho ou noutro compromisso, sem possibilidade de acompanhar a turma e acaba ficando em casa na maior vontade.
 
Mesmo quando viajo só, sinto que nunca estou realmente sozinho pois a moto, apesar de tão discriminada, atrai as demais pessoas e desperta nelas admiração e um pouco de inveja sadia pela sensação de liberdade que ela transmite. Seja lá onde for que se pare, sempre há oportunidade de conversar com pessoas e outros motociclistas que a gente encontra pelo caminho.
 
Certa vez, numa parada para abastecimento num posto de gasolina da BR-116, no Estado de Santa Catarina, encontrei o Comandante Rolim (da TAM), também motociclista solitário indo de encontro aos seus amigos que o aguardavam em Porto Alegre para de lá seguirem em grupo para o Chile. Se ambos estivéssemos de carro, nem teríamos nos olhado e sequer aproveitado aquela meia hora fantástica que ficamos batendo papo. Nem preciso dizer qual foi o assunto que norteou nossa conversa.
 
Numa outra ocasião, viajando sozinho, encontrei uma turma com perto de 35 motos pequenas, de um motoclube de outra cidade, e os acompanhei por um bom trecho de estrada, até que nossos destinos se separaram por estradas diferentes. Por muito tempo “troquei idéias” com alguns deles por e-mail.
 
Em ambos os casos, se morássemos na mesma cidade, talvez até pegássemos alguma estrada juntos e nascesse desse encontro ocasional, uma sólida relação de amizade e companheirismo.
 
É como diz a letra da música Canção da América: “Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves dentro do coração”. Dado o trabalho que dá fazer novos amigos de estrada, diria que é muito verdadeira essa feliz afirmação do Milton Nascimento.
 
By: Mário Sérgio Figueredo 

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