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Louco por motos

Causos: Aventura marcante

por Mário Sérgio Figueredo, em 30.10.08

 

Durante 27 anos trabalhei numa empresa de telecomunicações, na área de facilities, voltada à contratação e gerenciamento de todo o tipo de bens e serviços de logística.

 

Para grandes clientes, que demandavam tráfego de telecomunicações em grande quantidade (voz, imagem e dados) esses serviços eram viabilizados através de links de microondas que possibilitavam a comunicação individual, ininterrupta durante 24 horas por dia, todos os dias do ano.

 

Esses links consistiam na existência de duas antenas de tráfego duplo (emitia e recebia sinais), uma instalada no cliente e outra na nossa empresa, ligada aos equipamentos que a colocavam em contato com o mundo.

 

Quando a distância do cliente era muito grande do ponto de geração do sinal, esse contato ocorria via satélite; jogávamos o sinal para um satélite girando na órbita terrestre e o satélite refletia o sinal até à antena do cliente, em qualquer lugar do território nacional. Mas o normal era o link por visibilidade, ou seja, a antena instalada na nossa empresa se comunicava visualmente com a antena instalada no cliente.

 

Toda a contratação de infraestrutura para a instalação desses links era uma das atribuições do setor em que eu trabalhava e, cada caso era um caso, cada um tinha suas particularidades e níveis de dificuldade.

 

Para determinar a altura mínima da antena do cliente, ficava um técnico na nossa empresa, munido de um binóculo de alta potência e um técnico nas instalações do cliente, ambos munidos de rádio. Quando o primeiro enxergava o segundo, determinava-se o ponto de instalação da antena no cliente. Fácil quando era em edifícios.

 

Quando a instalação da antena do cliente exigia a construção de torres, precisávamos determinar também a altura mínima da torre e para isso criamos um método rudimentar, simples e eficiente, com a utilização de balões de gás com aproximados 2 metros de diâmetro, desses utilizados em grandes eventos, que ficam içados fora fazendo publicidade de alguma marca.

 

O balão era içado e quando o técnico com os binóculos o enxergava, medíamos a corda de içamento e estava determinada a altura da torre que seria construida. Esse sistema funcionava muito bem quando a altura envolvida não ultrapassava os 30 ou 40 metros e a soltura do balão ocorresse em dia sem vento.

 

Quando a Chrysler e a Dana instalaram-se em Campo Largo, cidade pertencente à Grande Curitiba, contrataram nossos serviços de telecomunicações com antenas de comunicação direta. Só que devido à localização geográfica de ambas (vizinhas), as torres necessárias chegariam próximas aos 90 metros de altura, o que descartou a utilização de balões na determinação da sua altura exata. Tivemos que buscar outra solução.

 

Surgiu a idéia de utilizar um helicóptero que, pairado, começaria gradativamente a ganhar altura até que houvesse visibilidade, idéia prontamente aceita pelo nosso diretor e eu fui encarregado de administrar a contratação da aeronave.

 

Mesmo sem ter nada com a parte técnica da coisa, por ter contribuído com a solução do problema, ganhei de presente a participação no vôo.

 

Nossa jornada iniciou-se num heliponto localizado no Parque do Barigui em Curitiba, eu, o Carlos e o gerente da área técnica ficamos na parte de trás, o piloto e o Francisco ficaram na parte da frente da aeronave, um Bell Jet Ranger 206 (foto). Decolamos e pousamos a alguns quilômetros, no hangar da empresa dona da aeronave para retirada das portas e decolamos em seguida até o nosso destino, uns 15 quilômetros adiante.

 

 

O comandante do helicóptero era o Cmte. Michel, ex-piloto de caça da Força Aérea Francesa e quando passou da idade especializou-se em helicóptero de combate. Finalmente aposentado, veio para o Brasil e tornou-se piloto de helicópteros civis.

 

Já o Francisco, um dos técnicos designados para a tarefa era piloto comercial habilitado e estava fazendo cursos para pilotagem de helicóptero. O Francisco era o mais motivado e pediu ao Comandante Michel que demonstrasse algumas das coisas que um helicóptero podia fazer, sendo prontamente atendido.

 

Voávamos a uma altura de uns 200 metros quando a aeronave embicou para o chão, num mergulho quase vertical e com a aproximação do solo o comandante puxou o manche e a aeronave voltou ao vôo horizontal a uns 8 ou 10 metros do solo, indo de encontro a um paredão de árvores. Próximo ao paredão o helicóptero subiu num ângulo superior a 45 graus, fazendo um novo mergulho lateral à direita e em seguida a aeronave foi estabilizada para ganhar altura novamente.

 

Já bem alto novamente, o helicóptero foi "jogado" para a esquerda seguido de um novo mergulho quase vertical. Show de manobras, feitas por quem sabe o que está fazendo.

 

Claro que fiquei com o coração na boca depois dessa experiência mas nem de perto como o gerente da área técnica que estava a um passo de desmaiar ao meu lado. Pelo rádio, cada ocupante da aeronave usa fones de ouvido e microfones por causa do barulho, comuniquei ao comandante o estado do seu passageiro e nosso show de acrobacias encerrou-se por ali, pena.

 

Fomos até os nossos 2 destinos, fizemos as medições necessárias e retornamos ao ponto de partida onde foi encerrada a nossa aventura.

 

Já tinha feito outros vôos de helicóptero mas nenhum tão "temperado" como o daquele dia. A experiência ficou marcada na minha alma como uma doce cicatriz e até hoje, passados mais de 15 anos, lembro-me de todos os detalhes da aventura como se ela tivesse ocorrido ontem.

 

 

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