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BLOG DO MÁRIO

Neste blog eu posto de tudo um pouco, prezando sempre por assuntos que despertam interesse do leitor, evitando sempre assuntos polêmicos como política, religião e futebol. Boa leitura! Eu sei que você vai curtir.

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08
Jul13

Estradas Fantásticas: Passagem de Tianmen – China

Mário Sérgio Figueredo

Em setembro de 2011 o mundo ficou conhecendo um lugar fantástico da China, até então desconhecido, quando foi divulgado um vídeo em que Jeb Corliss, utilizando uma roupa-asa, saltou de um helicóptero e atravessou planando um grande buraco em uma pedra situado na Montanha Tianmen, no Parque Nacional de Tianmen Mountain, Zhangjiajie, no noroeste da província de Hunan, China, local onde está instalado o “teleférico de passageiros em montanha mais longo do mundo”, com 98 carros, comprimento total de 7.455 metros e subida de 1.279 metros.

 

Jebb Corliss passa planando pela Caverna Tianmen com sua roupa-asa


Além do teleférico – ou planando como fez Jeb Corliss -, existe outra forma de se chegar ao topo da montanha, que é utilizando-se uma estrada que leva os visitantes para a Caverna Tianmen, como é chamado o buraco natural na montanha, com altura de 131,5 metros, em cuja base há um grande templo construido originalmente na Dinastia Tang (618 a 907 DC). Hoje uma construção mais recente ocupa o local que recebe anualmente uma legião de turistas que vai até lá atraído também pela oportunidade de caminhar muitos quilômetros em passarelas suspensas nas altura, fixadas nas paredes da montanha, que inclui até piso de vidro que dá a exata noção da altura dos precipícios.


Quilômetros de passarelas que permitem caminhar nas alturas; em alguns pontos o piso é de vidro


Mas vamos ao que realmente interessa, a Passagem Tianmen, estrada que por si só já é uma atração que justifica a visita à montanha Tianmen. São apenas 11 quilômetros e 99 curvas fechadíssimas, pois seu leito serpenteia nos paredões de pedra da montanha, verdadeira obra de arte da engenharia chinesa, construída em oito anos – 1998 a 2006. É o tipo de estrada em que o piloto (ou motorista) não pode desconcentrar de forma alguma, sob o risco de morte ao cair pelas altas encostas às margens do caminho. Lembra muito a nossa Serra do Rio do Rastro, localizada nas Serras Catarinenses.


Em seu ponto mais sinuoso essa estrada lembra a nossa Serra do Rio do Rastro


Viajar por essa estrada seria o sonho de qualquer motociclista, suas curvas são um convite tentador para se conhecer a China, lugar recheado de estradas fantásticas, como o Túnel de Guoliang.

 

O difícil relevo da região exigiu muita criatividade dos engenheiros chineses


Localização geográfica:

 

25
Nov12

Serra do Rio do Rastro, lugar que todo motociclista deve conhecer

Mário Sérgio Figueredo

Talvez a Serra do Rio do Rastro esteja para os brasileiros tal qual a Rota 66 está para os americanos; um lugar fantástico, que merece estar no roteiro de viagens de todo motociclista

 

Se há no Brasil algum lugar que inspire qualquer motociclista a fazer uma viagem daquelas que ficam marcadas para sempre na memória, esse lugar é, sem dúvida, a Serra do Rio do Rastro. Essa estrada liga Lauro Müller a Bom Jardim da Serra e São Joaquim e faz parte da região turística das Serras Catarinenses, terra privilegiada pela natureza, tanto pelo relevo e rios quanto pela vegetação serrana exuberante.


A parte espetacular da estrada tem apenas 6,6 km de extensão, mas faz a viagem valer a pena. Num espaço de pouco mais de 8 km lineares, sobe-se aproximadamente 670 metros, chegando-se aos 1.421 metros acima do nível do mar (altitude do mirante).


Imagem aérea que mostra o leito sinuoso da Serra do Rio do Rastro

 

A Serra do Rio do Rastro era originalmente o caminho dos tropeiros e sua mulas, que transportavam mercadorias da região litorânea catarinense até às cidades localizadas sobre o planalto, como São Joaquim e Lages. Na volta os tropeiros transportavam a produção local até à capital. Conta a história que a trilha era de muito difícil passagem, sendo comum a perda de mulas que caiam nos precipícios da encosta.

 

Serra do Rio do Rastro


Alem da Serra o Rio do Rastro, o turista motociclístico tem inúmeras outras opções de locais para conhecer, principalmente os localizados no município de Urubici.


O que visitar em Urubici

 

Serra do Corvo Branco, estrada construida apenas com trabalho braçal

Serra do Corvo Branco, estrada construida apenas com trabalho braçal


Serra do Corvo Branco

O município de Urubici, “pássaro brilhante” no idioma xokleng, tribo que habitava a região, oferece uma diversidade de relevo que o transformaram num dos paraísos do turismo de aventura no país. Programas do gênero não faltam. Pode-se fazer descida de rapel nas cachoeiras e paredões, canoagem em um dos rios da região – há dezenas deles -, cavalgadas por caminhos deslumbrantes e caminhadas por trilhas com variados graus de dificuldade.

Serra do Corvo Branco


A cidade oferece paisagens inesquecíveis como a vista da Pedra Furada a partir do Morro da Igreja, a 1.808 metros acima do nível do mar, ou cascatas como a do Avencal e a Véu de Noiva – duas entre nada menos que 82 quedas d’água catalogadas no território do município.


Uma vantagem de Urubici é que boa parte das atrações está na mesma direção, entre os 30 km que ligam o centro da cidade à lendária Serra do Corvo Branco. É um passeio imperdível, cujo encanto não está apenas nas belezas da natureza, mas no contato próximo com os costumes do morador local.

 

Trecho da estrada no meio da pedra, construido numa época em que não existiam máquinas

A Serra do Corvo Branco é um capítulo que merece menção especial nessa reportagem pela sua majestade e beleza. É outra estrada encravada no paredão de pedra, tão ou mais espetacular que a Serra do Rio do Rastro, tendo sido construída apenas com a utilização de ferramentas comuns, como pás, picaretas e dinamite, sem deixar de citar o trecho que chamam de “pedra cortada” (foto ao lado), obra também executada apenas com trabalho braçal.


Esse ponto turístico tem, obrigatoriamente, que fazer parte do roteiro motociclístico de quem vai conhecer aquela região. Cabe aqui uma ressalva: se o turista for de moto custom ou esportiva, certamente vai sofrer um pouco nos 5 km de estrada de chão muito mal conservada e cheia de pedras e buracos que se usa para chegar até lá – inimaginável o descaso da prefeitura local com a via de acesso a um ponto turístico tão atraente.


A região oferece estradas bem conservadas, refeições a partir de R$ 13,00 e rede hoteleira para todos os gostos e bolsos; a partir de meros R$ 40,00 já se consegue hotel de qualidade aceitável, com quartos espaçosos, lençóis limpos e banho quente. Mas recomenda-se reservar com antecedência pois, em períodos de férias ou feriados prolongados, a região costuma ser bastante procurada por turistas e os hotéis lotam com facilidade.


Caso queira conhecer todas os pontos citados nesta reportagem, reserve pelo menos dois dias inteiros, apenas para conhecer as maravilhas de Urubici e a Serra do Rio do Rastro.

 

Mesmo não sendo pedagiadas, as estradas da região encontram-se bem conservadas

 Mesmo não sendo pedagiadas, as estradas da região encontram-se bem conservadas 

 

Morro da Igreja e Pedra furada, 1808 metros acima do nível do mar

 Morro da Igreja e Pedra furada, 1808 metros acima do nível do mar

 

Como chegar aos principais pontos turísticos

Como chegar aos principais pontos turísticos



Fonte: Secretaria de Turismo do Estado de Santa Catarina, Prefeitura Municipal de Urubici, Prefeitura Municipal de Lauro Muller - Foto aérea: Prefeitura Municipal de Lauro Muller - Texto e demais fotos: Mário S. Figueredo

10
Out12

A culpa é do jegue?

Mário Sérgio Figueredo

Uma visão realista sobre os índices de mortalidade de motociclistas nas regiões Norte e Nordeste do país

 

Nas cidades do interior, o jegue está sendo substituido pelas motocicletas


Tem uma história na web que conta a trajetória do Severino, um senhor nordestino, analfabeto, cujo ganha-pão era afiar facas e consertar panelas em domícílio, com seu equipamento, um rebolo de pedra, instalado na sela de um jegue. Indo de casa em casa, Severino garantia o seu sustento.

No final do dia de trabalho, geralmente causticante pelo terrível sol nordestino, Severino passava em um boteco no caminho de casa e tomava as suas pinguinhas. Depois de várias, já alterado pela bebida, Severino montava em seu jegue e este já sabendo o caminho de casa, conduzia Severino com segurança até sua morada.

Com a popularização e a facilidade de aquisição das motocicletas, Severino também aderiu à moda e comprou a sua motoca; instalou o rebolo no bagageiro e continuou prestando o mesmo serviço à população da sua região.

Acontece que Severino não perdeu o hábito de passar no boteco para as pinguinhas diárias no final da tarde, e não tomou consciência que diferente do jegue, a moto não o levaria para casa sozinha.

A história do Severino reflete exatamente o que vem acontecendo nas regiões norte e nordeste brasileiro, com a substituição contínua dos animais de transporte e tração pelas motocicletas, entretanto, sem que a população receba preparo para fazer frente a essa mudança radical nos hábitos regionais.

O gráfico abaixo registra a distribuição geográfica de motocicletas em nosso país, dados de 2011 expedidos pelo Denatran:


32% da frota de motocicletas está nas Regiões Norte e Nordeste


O que esta acontecendo é que a população interiorana dessas regiões vem comprando motocicletas em grande escala – em sua maioria, as de 125cc – e as usando no lugar dos jegues, sem o menor preparo ou estarem habilitados, já que grande número desses motociclistas não sabe ler e escrever, exigencia do Código de Trânsito Brasileiro em seu Capítulo 14, Artigo 140, Inciso II para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação.


Pelas estatísticas da Abraciclo, nestas regiões o número de motocicletas é muito superior ao número de motociclistas habilitados na categoria A, o que evidencia a afirmação citada no parágrafo anterior (vide gráfico).

Os dados apontados nesse gráfico são alarmantes, veja o caso do estado do Maranhão, onde o número de motocicletas supera em 222% o número de habilitados na categoria A. Na sequência vem os estados do Piauí com 178% e Ceará com 157%.

Para complicar ainda mais a situação, há uma total indiferença dos órgãos que deveriam coibir a utilização de motocicletas por cidadãos que não estejam habilidados e preparados. O que se vê nas cidades do interior dos estados em geral, não só os do norte e nordeste, é o total desinteresse das autoridades de trânsito em coibir o uso de motocicletas sem as condições mínimas de circulação e a sua utilização por pessoas não habilitadas. Comum ver em documentários da TV sobre o tema, motocicletas sendo conduzidas por pessoas sem capacete, utilizando chinelos de dedo, transportando menores de 7 anos e ausência total de equipamentos de segurança.

O transporte de crianças menores de 7 anos tem sido uma catástrofe em alguns estados nordestinos. Segundo dados fornecidos pelo site da ABETRAN – Associação Brasileira de Educação de Trânsito, 25% dos 60 leitos reservados para crianças no maior hospital de emergência do nordeste estão ocupados por vítimas de acidentes de motos. O Código de Trânsito diz que conduzir motocicleta, motoneta ou ciclomotor transportando criança menor de sete anos ou que não possa cuidar da própria segurança é infração gravíssima. A multa é de R$191,00 mais sete pontos na carteira de habilitação. Mas de que vale a lei se não há fiscalização e nem punição para os infratores?
 

Adultos conduzem os menores sem capacete, com três (ou mais) pessoas em uma moto, com crianças espremidas no meio ou sozinhas na garupa. Vitória, dois anos, é uma das vítimas da imprudência. Ela estava na moto com o pai e uma tia, quando eles bateram em outra moto. A menina teve uma fratura no fêmur e está há mais de um mês no Hospital da Restauração.

O tempo médio de permanência dos pacientes na Restauração é de 7 a 11 dias. Crianças dificilmente ficam internadas menos de 45 dias e, muitas vezes, permanecem imobilizadas, entre uma cirurgia e outra.

Rafael, outro menor acidentado, já passou por quatro cirurgias. Está vivendo no Hospital há sete meses. Fraturou as duas pernas, o fêmur, um braço e a bacia e não consegue andar. Estava na moto com o irmão e uma menina de 12 anos. Todos sem capacete. Os outros dois morreram.

Segundo dados do Ministério da Saúde, quase metade dos gastos do Sistema Único de Saúde (SUS) com vítimas de acidentes de trânsito no Brasil foi destinada ao atendimento de motociclistas em 2011. De acordo com levantamento do Ministério da Saúde, foram investidos 48,07% de aproximadamente R$ 200,3 milhões. Um dos motivos é o aumento de 95,32% nas internações de motociclistas acidentados entre 2008 e 2011.

No mesmo período, os gastos no atendimento a usuários de motocicletas cresceram 113% em todo o País. A região Norte é a que registra o maior percentual de gastos: 68,65% dos cerca de R$ 7,6 milhões investidos no ano com pacientes que sofreram acidentes foram destinados aos motociclistas. No Pará, eles foram responsáveis por 83,77% dos gastos de R$ 3,4 milhões em 2011. O Pará é um Estado ocupado por motos onde o número de acidentes fatais, segundo o Departamento de Trânsito (Detran), cresce a taxas alarmantes de quase 20% ao ano. O número de vítimas, segundo levantamento do departamento, pulou de 378 em 2008 para quase 770 em 2011 e deve chegar a, aproximadamente, 924 até o final deste ano,  obrigando o Ministério da Saúde, através do Sistema Único de Saúde (SUS), a aumentar em quase 113% o repasse de verbas destinadas ao tratamento de acidentados no Brasil: de R$ 45 milhões, em 2008, para R$ 96 milhões no último ano. O secretário de Saúde Pública do Estado, Hélio Franco, dá o parecer sobre o assunto: “É uma epidemia”.

Ano passado, a Sespa (Secretaria Estadual de Saúde Pública do Pará) investiu 20 milhões no tratamento de vítimas de acidentes envolvendo motocicletas. De acordo com Hélio Franco, o Estado gasta por mês R$ 500 mil apenas no transporte de pacientes com traumatismo, a maioria proveniente de acidentes com motos. Muitos acidentados ganham direito à aposentadoria por invalidez, de saúde e familiar.

Entre os Estados, esse percentual só não é maior do que o do Piauí, onde 84,26% dos cerca de R$ 3 milhões destinados a vítimas do trânsito no Estado foram usados para atender pessoas acidentadas que estavam em motos. O Nordeste também tem o estado que teve o maior aumento nos gastos nos últimos quatro anos. Em Pernambuco, o custo subiu 1.286% de 2008 a 2011, passando de R$ 184 mil para R$ 2,5 milhões.

O excesso de velocidade, o consumo de bebida alcoólica antes de dirigir e a imprudência são apontados pelo ministério como fatores que têm contribuído para o aumento de acidentes envolvendo motociclistas. O incremento na frota de veículos também é responsável pelo crescimento das estatísticas nada animadoras.

O que está acontecendo é uma verdadeira carnificina, com pessoas morrendo diariamente apenas por pilotarem sem estar preparadas. O que causa estranheza é a indiferença das autoridades pois essas estatísticas assustadoras já deveriam ter desencadeado medidas para conter essa escalada de mortes entre motociclistas.

Onde estão as autoridades de trânsito das cidades do interior? E a vontade política dos prefeitos e governadores? O que estão fazendo as polícias rodoviárias Estaduais e Federal? Cadê os representantes dos Ministérios Públicos dos Estados que não exigem atuação mais presente dos prefeitos, Detrans, Contran e Denatran? Quais ações estão sendo executadas pela Abraciclo? Por um número insignificantemente menor de mortes nas favelas do Rio, houve a mobilização da Guarda Nacional. Por que não acionar esse mesmo contingente de policiais para intervir nas cidades onde há clara omissão das autoridades de trãnsito e fazer com que seus prefeitos sejam punidos pela omissão?

No II Workshop Abraciclo realizado em 2011 em São Paulo, Walter Kauffman Neto, engenheiro, consultor e perito especialista em acidentes de trânsito, disse que a educação, fiscalização e punição são os fundamentos do caminho a ser seguido para solucionar os problemas de acidentes no trânsito em nosso país. Como aplicar esses fundamentos sem ter polícias fiscalizadoras de trânsito nas pequenas cidades? Essa é a questão.

Diante dessa abordagem, conclui-se que o problema é sério,  real e carece de ações concretas imediatas, recorrendo-se à vontade política e policiamento ostensivo. Basta as autoridades de trânsito cumprirem suas obrigações constitucionais (municipais, estaduais e federal) que o número de mortes entre motociclistas tende a cair a níveis aceitáveis pela Organização Mundial de Saúde – OMS.

E respondendo à pergunta no título, a resposta é NÃO, o jegue não tem culpa nenhuma, pelo contrário, tornou-se também vítima por estar obsoleto. E está sendo dizimado.


Por Mário Sérgio Figueredo

 

Colaboração: Jornalista Luiz Sucupira, Abraciclo, Diário do Pará e Portal Motonline

28
Jul12

Um motociclista na “prisão”

Mário Sérgio Figueredo

Certamente quando o amigo leitor acessa sites blogs de motociclismo quer ver testes dos recentes lançamentos no mercado, viagens e aventuras bem sucedidas realizadas por motociclistas destemidos e notícias curiosas do mundo motociclístico; é o que chamamos de LADO BOM do motociclismo.

 

Entretanto como tudo nessa vida, o mundo motociclístico tem também o LADO RUIM, os constantes acidentes de trânsito envolvendo as motocicletas e seus pilotos, que normalmente sofrem lesões sérias.

 

Estamos acostumados a ter contato com esse LADO RUIM através da mídia, que noticia diariamente acidentes, muitos deles fatais e a grande maioria envolvendo traumas nos garupas e pilotos.

 

Se o motociclista acidentado não for do nosso círculo de amizades ou familiar, esse contato se resume a ler a notícia, ficar apenas momentaneamente indignado e consternado. Pouco depois a notícia cai no esquecimento e tudo volta ao normal, a vida continua.

 

Só que muita coisa acontece depois do acidente, coisas às quais não temos conhecimento e não vivemos esse drama.


 

Como eu passei por uma situação dessas, vou relatar a seguir como foi o período de recuperação da lesão que sofri, fratura da tíbia e fíbula da perna direita. Vamos lá, prepare-se para conhecer esse LADO RUIM do motociclismo, cujo risco nos acompanha cada vez que desfrutamos do  indescritível prazer de andar de motocicleta, que sempre foi uma atividade de alto risco, fato do qual todos temos consciência. Isso devido a diversos fatores como motoristas (e mesmo motociclistas) mal preparados, condições adversas de trânsito, “armadilhas” inesperadas como óleo na pista, tampas de bueiro mal colocadas, faixas pintadas com tinta inadequada e uma outra infinidade de fatores de risco. Temos que pilotar com os sentidos totalmente aguçados pois a qualquer momento estamos sujeitos a passar por alguma situação de acidente, que normalmente nos deixa sequelas, já que nosso corpo não tem a mesma proteção  que os carros ou veículos maiores oferecem.

 

A situação que vou relatar neste texto aconteceu comigo em 24/11/2011, dia do meu aniversário de casamento, por volta de meio dia:

 

Saí de moto para resolver um problema num local próximo à minha casa, vestindo capacete, calça jeans, bota e jaqueta de couro – como estava calor, não estava usando luvas. Na rua em que eu seguia tem uma curva fechada cuja visão é bloqueada por uma construção irregular que avança pela calçada, bem próxima à via de rolamento. Quando entrei na curva a uns 40 km/hora me deparei com duas meninas com seus 10 ou 11 anos tentando atravessar a rua, bem no ponto cego. Ao me verem elas se assustaram e correram em direções diferentes me obrigando a frear forte. A minha reação foi normal e esperada, considerando os meus 35 anos de pilotagem praticamente sem acidentes ou incidentes. Para meu azar bem por onde eu passava havia areia sobre o asfalto, o que provocou perda de aderência do pneu dianteiro e o chão foi inevitável. Tombinho simples, daqueles em que bastaria levantar a moto e seguir em frente.

 

Só que não foi bem assim; instintivamente coloquei o pé no chão, momento em que a bota altamente abrasiva “agarrou” no asfalto provocando a torção da minha perna. Caí sob a moto, protegendo-a de danos maiores – por ser uma Sahara, nem quero pensar no estrago que uma ralada qualquer viria a provocar na sua grande carenagem – em seguida já pude ver o meu pé direito numa posição impossível, evidenciando uma fratura. Alguns populares retiraram a moto que estava sobre mim e chamaram o SIATE.

 

Fui conduzido para o Hospital do Trabalhador em Curitiba e encaminhado ao serviço de emergência, uma grande sala onde eu, sobre uma maca, compartilhava o ambiente com umas outras 30 pessoas sendo atendidas por vários motivos como atropelamentos, ferimentos por arma de fogo e, principalmente, ACIDENTES DE MOTO. Pelo menos metade dos atendidos estavam ali por causa da moto.

 

Constatou-se na minha perna a fratura da tíbia e fíbula, agravado pelo estilhaçamento vertical da tíbia – a tíbia teve 3 rachaduras que se projetavam do meio do osso até  o calcanhar. No mesmo dia passei por uma cirurgia para instalação de um estabilizador – ferragens externas com a finalidade de fixar o pé com a perna, evitando que movimentos possam vir a cortar músculos ou veias – que me acompanharia até a instalação de uma prótese interna, peça que demoraria alguns dias para ser adquirida.

 

Por se tratar de uma peça importada e muito cara (R$ 9.000,00, custeada pelo SUS), Somente no dia 4/12 a peça chegou e no dia seguinte fui operado para a instalação da prótese, ou seja 11 dias após o acidente.

 

Durante esses 11 dias fiquei instalado em uma enfermaria com mais 2 pacientes, um recuperando-se de ferimento a bala e outro com o pé necrosado em decorrência de diabetes. Todas as noites foram acompanhadas de intenso carlor do verão curitibano, gemidos e choro provenientes de outras enfermarias, corre-corre de enfermeiros para atender casos de pacientes em crise, luzes acesas nos corredores, sem contar o fato de que eu não podia mexer muito a perna lesionada, o que me obrigou a dormir (ou tentar) na posição de costas, que me é bastante desconfortável. Cada vez que eu precisava ir ao banheiro era uma operação de guerra que envolvia 3 ou mais enfermeiros para me colocar na cadeira de rodas e me auxiliar no vaso sanitário. Tomar banho então, nem se fala, mesmo com o uso da cadeira apropriada para esse fim, era outra operação que exigia pelo menos 2 enfermeiros.

 

Durante todo esse período não senti dores, talvez porque passei praticamente todo o tempo dopado pelo efeito de tranquilizantes – injeções de morfina na veia eram constantes. Mas asseguro ao leitor que ficar esses dias no hospital foi uma grande tortura física e psicológica.

 

Apenas 3 dias depois da cirurgia para instalação da prótese que me acompanha até hoje eu já recebia alta hospitalar, indo para minha casa.

 

Pois foi a partir daí que a coisa complicou:

 

A perna fraturada não permite movimentos pois a dor da fratura mais a dos músculos magoados impede que se tenha mobilidade – no hospital tem um exército de enfermeiros e se for preciso te carregam para onde for – mas em casa a situação era outra, dependia da minha esposa para tudo, exigindo-lhe dedicação integral. Para a realização de coisas simples eu dependia dela; tomar banho, ir ao banheiro, levantar e me transferir para uma cadeira, me locomover de um lugar para outro, fazer o curativos diários nas lesões decorrentes dos cortes para instalação da placa metálica no osso fraturado, tudo era uma maratona – tive até que instalar barras horizontais de sustentação nas paredes do WC e box do meu banheiro. Só com muito amor alguém consegue superar o calvário ao qual minha esposa foi submetida durante os primeiros 4 meses da minha recuperação e por isso jamais, jamais eu conseguirei retribuir à altura o carinho com que ela me tratou nesse terrível período de recuperação.  

 

Achar uma posição na cama para dormir era uma tortura, sair de casa então, era muito complicado e só foi amenizado porque um amigo me cedeu uma cadeira de rodas que passei a usar praticamente o dia inteiro durante mais de 3 meses – a cadeira de rodas, apesar de todos os benefícios oferecidos tornou-se a minha prisão, passei a depender dela para tudo – ainda bem que conseguia passar com ela nas portas do meu apartamento.  As muletas ainda não eram úteis porque minha baixa resistência física aliada ao meu coração debilitado, me impingiam extremo cansaço – andar de muletas é muito cansativo e exige um bom vigor físico.

 

Em meados de março/2012 minha resistência física e cardíaca melhorou muito e pude começar a andar de muletas com mais desenvoltura, o que me deu mobilidade para poder iniciar passeios no pátio e arredores do prédio onde moro, mas sempre em curtos percursos de no máximo uma quadra.

 

Em junho/2012 uma nova conquista; comecei a dirigir. Apesar de ainda não poder andar sem auxílio de muletas o meu pé já oferecia condições de controlar o freio e o acelerador – foi a minha libertação pois pude começar a ir a todos os lugares sem precisar de um motorista, eu podia ir sozinho, acompanhado das muletas ou cadeira de rodas, dependendo do lugar.

 

Foi nesse período que pude sentir na pele como as pessoas portadoras de necessidades especiais são desrespeitadas em nosso país. A vagas a eles destinadas não são respeitadas e, pasmem, em sua grande maioria por pessoas de mais idade, acima dos 50 anos. Os jovens raramente utilizam essas vagas indevidamente.

 

Hoje, mês de julho, 8 meses depois, não dependo mais das muletas, ando sozinho, mas ainda manco bastante pois não readquiri todos os movimentos de equilíbrio do pé. Acredito que serão necessários ainda mais uns 3 ou 4 meses para que tudo volte a ser como antes. Daí talvez tenha que me submeter a nova cirurgia para retirada da placa metálica, mas essa será outra história.

 

Pois é amigos, muita coisa acontece depois daquela notícia que lemos despretensiosamente na mídia, tem muito sacrifício e sofrimento “escondidos”, que a gente não toma conhecimento e sequer consegue dimensionar o grau de transtorno a que nossas famílias são submetidos.

 

Não canso de salientar que sem o apoio da família, de pessoas se dedicando a auxiliar o acidentado durante sua convalescença tudo seria muito, mas muito pior. Agora imagine como é quando o acidentado é um motoboy, trabalhando na informalidade, sem registro em carteira, sem a garantia financeira durante a recuperação. Dá até arrepio só de imaginar.

 

Rezo todos os dias para que nenhum dos meus amigos tenha que passar pelo que eu passei; foi um período infernal na minha vida e nas das pessoas com quem convivo.

 

Mas tudo isso faz parte da vida e, não importa o infortúnio, temos que encarar de frente, com coragem, serenidade e perseverança.

 

 

Por Mário Sérgio Figueredo

 

04
Jun11

Estradas Fantásticas - Lyserbotn Road

Mário Sérgio Figueredo

Lyserbotn Road com o Fiorde de Lyserbotn

 

A geografia no Norte da Noruega, é bastante peculiar pela existência de grande quantidade de fiordes, que são golfos profundos e estreitos, de extensa penetraçao terra adentro, encontrado principalmente nos países escandinavos, banhados pelo Mar do Norte e Mar da Noruega.

 

Um desses fiordes, o que vamos falar aqui é o Fiorde Lysebotn que adentra ao território norueguês por 40 km, onde em seu ponto mais profundo existe um povoado que leva o mesmo nome do fiorde, local de construção da usina hidroelétrica de Tjodan, inaugurada em 1984.

 

As obras da usinas exigiram a construção de uma estrada para o envio dos materiais necessários à mesma e o escoamento das pedras geradas pela grande escavação. Então, no período de 1953 - 1964 a estrada foi construida ligando o alto da montanha até o nível do mar, o que representa um desnível de 950 metros. Até então o acesso ao vilarejo de Lyserbotn só era possível através da navegação pelas águas do fiorde, o que encarecia de sobremaneira o custo de vida local.

 

A construção da estrada de 30 km serra abaixo criou um acesso fácil ao lugar, que foi rapidamente descoberto pelos turistas que visitam aquele paraíso em números que chegam a 100.000 por ano, lembrando que pela proximidade com a calota polar Ártica, durante grande parte do ano a estrada fica coberta de neve, o que interrompe o tráfego nos meses de dezembro a abril. Além da inúmeras curvas, o ponto alto do passeio é a travessia do Túnel Lyse, que a exemplo da estrada é recheado de curvas internas.

 

Se você ainda não teve a oportunidade de ir lá pessoalmente, desça virtualmente a serra de moto no vídeo abaixo - são 8 minutos que valem a pena pois contempla inclusive a travessia do túnel Lyse.

 

Descendo a serra até Lyserbotn. atenção para o túnel

 

Localização geográfica.

 

 

Bem próximo ao ponto mais alto dessa estrada fica o caminho para o Púlpito de Rocha (preikestolen), que já falei em post anterior neste blog.

 

Relembre:  PREIKESTOLEN, o púlpito de rocha

 

11
Mai11

Sahara, saudade não tem idade

Mário Sérgio Figueredo

Vou contar para vocês como foi a minha aventura para achar a preciosidade que acabei de comprar, uma Honda NX 350 Sahara ano 1999, roxa, com 21 mkm originais de fábrica.

 

Não foi fácil achá-la. Estabeleci como meta uma Sahara anos 98 ou 99 com menos de 25 mkm rodados e em ótimo estado. Com essa referência fui à luta.

Comecei procurando na minha cidade mas as poucas que achei o pessoal pedia muito, algo em torno de R$ 8,5 a 9 mil Dilmas. Me recusei a pagar tanto e resolvi procurar em outras cidades, estendendo minha busca para o moto ponto com, mercadolivre, comunidade da Sahara no Orkut, amigos que procuravam em vários cantos do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Como resultado dessa busca apareceram 4, duas em São Paulo, uma em Cubatão-SP e outra em Alfenas-MG. Resolvi ir vê-las pessoalmente e no sábado embarquei para Sampa à meia-noite e cheguei às 6 horas da manhã. Coloquei minha bolsa num guarda-volumes automático (pesada por causa do capacete, capa de chuva, jaqueta de couro, luvas, tudo acondicionado dentro dela e pronto para ser usado na volta).

Combinei com os donos das Saharas de Sampa que os encontraria no Anhembi mas nenhum dos dois apareceu. Depois fiquei sabendo que um desistiu da venda e o outro vendeu na sexta-feira.

Tomei um café-da-manhã paulistano (pão com manteiga e café com leite no copo americano - que queima a mão :lol: ) e fui ao mercado de carros e motos que funciona no estacionamento do Anhembi no domingo pela manhã (fiquei assustado com os preços da entrada: moto 25 Dilmas, carro 69 Dilmas e caminhão 85 Dilmas, um verdadeiro assalto).

Dentre umas 400 motos à venda, achei apenas 3 Saharas, todas em estado lastimável, deu até dó de ver motos tão maltratadas. Eram muitas motos, de todos os tipos e anos e algumas mexeram comigo e se tivesse podendo gastar um pouco mais teria me abraçado com uma delas: 02 Suzuki Freewind, uma azul e outra prata, lindíssimas e ambas com menos de 20 mkm rodados, a azul por R$ 18 mil e a prata R$ 16 mil, a prata parecia que saia da fábrica naquele instante de tão inteira que estava.

Outra que fiquei apaixonado foi uma Yahaha TDM 850 prata, por R$ 22 mil, moto fabulosa. Assim que eu conseguir colocar minha vida financeira em dia, num futuro bem próximo, eu pego uma dessas.

Fiquei no Anhembi até umas 11 horas e voltei para o terminal Tietê com a decisão de ir até Cubatão e caso não desse negócio, voltaria a Sampa no domingo mesmo e iria para Alfenas naquela mesma noite.

Chegando ao Tietê descobri que o ônibus para Cubatão saia do Terminal Rodoviário Jabaquara. Lá fui eu de metrô - já estava cansado e como a noite anterior (viajando) não foi lá essas coisas, estava difícil ficar acordado.

Cheguei ao Terminal Jabaquara eram 12:50 h com a fome apertando mas resolvi primeiro comprar a passagem para ficar mais tranquilo. Quando achei o guichê da empresa que transporta até Cubatão fiquei sabendo que o ônibus sairia dali a 5 minutos. Foi o tempo de comprar a passagem, embarcar e o ônibus sair - meu estômago teve que esperar.

Cansado, com sono e um ambiente fresquinho por causa do ar condicionado, não deu outra; "garrei no sono". Acordei com o motorista ligando o ônibus e perguntei para o passageiro do banco de trás onde estávamos. Ele respondeu que era Cubatão. Bati na porta e o motorista deixou-me descer - por pouco não fui para Santos (rsrsrsrs).

Logo que desci do ônibus liguei para o dono da Sahara e em menos de 15 minutos lá estava ele (o dono) com ELA (a Sahara) e a noiva dele de carro para me transportar.

Foi amor à primeira vista, pela moto, é claro.

Conversamo por um bom tempo ali mesmo e como estava hipercansado, molhado de suor (com Cubatão é quente, affff); estava eu, com aquele calor todo, de calça jeans grossa, camisa de algodão, meias grossas e botas. Não via a hora de tomar uma ducha e pedi para que me levasse até um hotel que um taxista havia me indicado.

Eles me deixaram no hotel e marcamos que ele retornaria com a moto depois do jogo em que o Corinthians levou um baile do São Paulo.

Só que não deu certo a minha hospedagem, hotel ruim e preço extorsivo - Cubatão tem um enorme número de trabalhadores temporários, bem superior à capacidade dos hotéis e isso faz com que os preços sejam abusivos - coloquei a bolsa nas costas e saí à pé à procura de outro hotel. Andei acho que uns 4 km passando em vários. Por um lapso de sorte cheguei a um recém-inaugurado, bonzinho, por um preço que para os padrões curitibanos era muito alto - R$ 120,00 a diária com ar condicionado, tv por assinatura, ducha e café-da-manhã. Não aguentava mais andar, fiquei nele mesmo, depois de pechinchar e reduzir o preço para R$ 100.

Cheguei no quarto e foi difícil tirar a roupa porque estava ensopada de suor - a camisa eu torci e pingou, parecia que tinha tomado chuva - naquele momento eu estava quase morto.

Fiquei meia hora sob o chuveiro e renasci. Terminado o jogo o dono voltou com a Sahara e aí eu pude olhá-la nos detalhes e andei com ela nos arredores do hotel. Fiquei mais apaixonado ainda. Apesar das ruas terem piso bem irregular a moto não batia nada, não fazia nenhum barulho, nem nas carenagens o que é normal nas Sahara.

Depois disso tentei sem sucesso comer alguma coisa em algum lugar próximo. Fiquei de estômago roncando.

Fechamos negócio e combinamos ir no cartório e ao banco na manhã da segunda-feira. Ao retornar ao hotel puxei pela internet os débitos da moto e estava tudo zerado, o IPVA de 2011 já estava totalmente pago, faltando apenas o DPVAT e o licenciamento.

Voltei para o meu quarto querendo assistir ao Fantástico; só querendo porque acordei somente às 8 horas da manhã do dia seguinte. Dormi com TV e ar ligados e acordei com um frio do cão.

Depois do café, conforme combinado o vendedor chegou com a moto e um amigo de carro. Ao lado do hotel havia uma oficina de motos que o pessoal dizia ser a melhor da cidade - conforme havia previamente combinado com o dono da oficina, deixei a moto lá para uma pequena revisão preparando-a para a viagem de retorno a Curitiba.

 

Moto entregue na oficina fomos até o cartório onde reconhecemos as firmas do vendedor e comprador (como verdadeiras, como exigem os Detran hoje). Na sequência fomos ao banco que para minha surpresa só abriria às 11 horas - bancário paulista é folgado mesmo. Esperamos o banco abrir e finalizamos a transaçao financeira.

Na porta do banco mesmo nos despedimos, não antes do vendedor me entregar um catatau de papéis, chaves reserva e da trava, controles remotos do alarme, manual do proprietário, notas fiscais de todo o histórico de manutenção da moto, todos os documentos anuais desde 1999, itens que me confirmaram que a moto era tratada a pão-de-ló.

Logo em seguida cheguei ao hotel, fechei minha conta, peguei minha mala e fui até à oficina para pegar a moto. Já estava pronta, com óleo conferido, corrente lubrificada e ajustada e cabos regulados.

Numa moto-peças ao lado comprei 2 extensores, prendi a bolsa no bagageiro (a bolsa quase sumiu quando tirei os apetrechos de viagem). Coloquei as luvas e a jaqueta de couro e caí na estrada. parando antes de sair da cidade para encher o tanque.

Resolvi voltar por Itanhaém e Peruíbe, caminho mais curto até à BR-116.

Como não conheço nada naquelas bandas foi difícil achar a saída certa, correndo o risco de ir para Sampa ou Santos caso não acertasse - mal sinalizado bagarai - com o trânsito "parado" devido ao engarrafamento de caminhões que desciam para o porto foi fácil pedir informações a alguns motoristas, até que achei a saída para Peruíbe.

No início eu estava inseguro, afinal faziam 7 longos anos que eu não pegava uma estrada de moto. Comecei entravando o trânsito porque não passava dos 70 km/h. Aos poucos fui ganhando confiança, retomando a experiência de tantos quilômetros rodados outrora. Depois de uns 50 km rodados o velocímetro não baixava de 130 km/h - rsrsrs

Estrada ótima, pista dupla, até depois de Peruíbe quando a pista voltou a ser simples mas o trânsito era insignificante e a estrada era toda minha, raramente cruzava ou ultrapassava outro carro, podia ocupar a estrada inteira para fazer as curvas.

Fica difícil descrever as sensações que eu senti no início da viagem de volta, parece algo que está represado há muito tempo e num só momento as comportas do prazer são abertas e o corpo sofre uma injeção de adrenalina, enforfina e outros inas. Parecia que eu estava drogado com o prazer de novamente pilotar uma moto na estrada, principalmente sendo aquela moto que eu queria.

Apesar do trecho entre Peruíbe e a BR-116 estar com o asfalto cheio de emendas, a suspensão da Sahara nem sentia, afinal é no piso irregular que ela pode mostrar seus predicados, suas qualidades. O pneu dianteiro novinho em folha e o trazeiro com muita borracha ainda agarravam a estrada e em nenhum momento me deram sustos, apesar de eu já estar abusando um pouquinho além do aconselhável nas curvas.

Quando cheguei à BR-116 o asfalto mudou radicalmente, livre de buracos e irregularidades mas em contrapartida o trânsito de caminhões estava bastante intenso. Redobrei a atenção, principalmente nas ultrapassagens e quando um caminhão ultrapassava outro e tomava toda a pista. Para descontrair, quando passava pelos caminhões, dava uma buzinadinha com a medíocre buzina da Sahara e recebia de volta uma sonora resposta de uma corneta a ar, foi muito legal e posso dizer que estava "plantando" pois se lá na frente eu precisasse de ajuda, algum desses caminhoneiros iria parar para me ajudar. Raríssimas motos na estrada, de moto grande lembro apenas de uma "Mônica" que viajava em direção oposta à minha.

Em Registro a minha região glútea começou a reclamar e resolvi fazer um pit-stop básico no Graal para reabastecer a moto e descansar um pouco. Essa parada durou menos de 15 minutos e peguei novamente a estrada. Correu tudo maravilhosamente bem, até São Pedro colaborou e não peguei uma gota de chuva até em casa.

Tomei um susto . . . quando vi uma placa dizendo: Curitiba a 95 km. Caramba, parecia que eu havia acabado de sair de Cubatão e já estava tão perto de casa - em queria que ainda faltassem pelo menos uns 500 km, tamanha era a alegria que eu sentia.

Nesse ponto da viagem a fome bateu valendo, afinal eu não comia nada consistente desde o almoço de sábado. Passei todo esse tempo tomando litros e litros de água. Avistei um lugar simpático e resolvi parar. Já eram quase 17 horas, tarde para o almoço e cedo para o jantar. Pedi ao dono do restaurante um bife com pão que me deliciei acompanhado de 2 garrafas de coca-cola. Não sei se era a fome ou realmente o tempero do bife estava soberbo, comi com gosto e cheguei até a raspar o caldinho do bife com o pão. Descansei uns 20 minutos e novamente voltei à tocada, só parando para telefonar para minha esposa avisando que estava chegando e pedindo para ela abrir o portão automático quando chegasse.

Cheguei com o corpo muito cansado devido à abstinência de tantos anos mas a alma estava leve e queria mais estrada, muita estrada, quem sabe um bate-e-volta até Floripa (rsrsrsrs).

Na viagem pude confirmar a total ausência de ruídos ou peças soltas, ou mal ajustadas na moto, mesmo nos locais onde os remendos no asfalto faziam com que a moto pulasse feito cavalo chucro ela mostrava-se firme e com todos os seus componentes bem firmes e fixados.

O retorno rodando foi ótimo porque depois de quase 450 km rodados já nos tornamos íntimos e começamos a nossa convivência da melhor forma possível, no melhor lugar possível, a estrada.

Enfim amigos, essa foi mais uma experiência inesquecível, daquelas que guardarei na minha memória, de como achei e comprei a minha NONA Sahara, com a qual pretendo ficar um bom tempo, até que consiga comprar outra moto de cilindrada maior.

Quem sabe eu não tenha que buscar essa nova moto bem longe? E o melhor, vir rodando . . .

 

 

 

Foto da Mafalda (apelido carinhoso)

20
Abr11

Uma professora especial

Mário Sérgio Figueredo

Se me perguntarem se lembro o nome de algum professor ou professora que tive desde o primário até a faculdade eu responderei seguramente que NÃO, exceto uma, somente uma professora, a que marcou a minha vida de aprendiz despertando em mim um talento adormecido.

 

No primário eu amava a escola, era o primeiro a chegar na aula e o último a sair. Minhas notas eram sempre as melhores da turma e normalmente me destacava nos trabalhos escolares bem como em atividades extra-classe. Foi nessa fase que construí uma boa base nas matérias essenciais, aquelas que, devido à sua essência, darão-nos conhecimentos que utilizaremos no resto de nossas vidas; matemática, português, ciências e geografia.

 

Naquela época, para passar do primário para o ginasial era necessário fazer um tal de "exame de admissão", como se fosse um mini vestibular. Somente depois de aferir o nível de conhecimento básico necessário é que se ingressava no ginasial. Caso esse nível não fosse atingido o estudante teria que aguardar mais um ano e tentar novamente, até que lograsse êxito. Pois passar nesse exame para mim foi de primeira, com nota superior a 9,0. Até então eu era o típico Caxias estudioso.

 

No segundo grau as coisas começaram a mudar, ingressei no Ginásio do Instituto Salesiano de Assistência Social em Curitiba, excelente escola, mas devido à mudança das técnicas de ensino (acabou o maternalismo característico do ensino primário), meu interesse pelo aprendizado não era mais o mesmo, meu ânimo em sala de aula era lastimável, preferia ficar no pátio e arredores do colégio aprendendo a fumar e outras coisas mais - quase fui reprovado por faltas no primeiro ano. Tornei-me um aluno problema para o colégio e para meus pais. Isso repetiu-se também no segundo ano, mas eu ia passando porque bastava uma rápida lida nas matérias que copiava dos colegas e já estava em condições de conseguir as notas mínimas para passar de ano.

 

No terceiro ano eu já odiava todas as matérias e todos os professores, principalmente as terríveis aulas de Educação Artística e Educação Moral e Cívica. Mas foi nesse ano que tive a sorte e o privilégio de ser aluno de uma professora especial, daquelas que só existem UMA em cada mil. Dotada de um carisma inexplicável, um jeito atípico de ensinar, ela conseguiu o inimaginável, fez com que eu passasse a gostar da matéria de, pasmem, PORTUGUÊS.

 

Seu nome: Professora LEOCÁDIA

 

Com a Professora Leocádia eu passei a me dar bem com os verbos e a conjugá-los adequadamente, a ter ortografia (quase) correta, desenvolver boa interpretação de textos,  adquirir leitura e dicção perfeitas e a fazer boas redações, enfim, não tornei-me um Machado de Assis mas conseguia escrever corretamente e colocar no papel as palavras numa sequência que dava a quem lia, condições de interpretar e entender com facilidade. O resultado de tudo isso foi o aprimoramento da criatividade, a capacidade de verbalizar experiências reais e fictícias.

 

Com seu jeito carinhoso e dedicado a Professora LEOCÁDIA abriu-me os olhos e mostrou-me o prazer da escrita, de registrar para sempre no papel as minhas idéias e meus pensamentos, tornando-os imortais e modificando-me para ser uma pessoa melhor, mais interessada com as coisas da vida. Se hoje você tem a oportunidade de compartilhar o que escrevo neste blog, devemos muito a ela.

 

Este mês fiquei sabendo que ela ainda mora na mesma casa, próximo à minha, e daí decidi que irei até ela fazer um agradecimento, levar-lhe um presente e dizer-lhe que foi ELA a grande responsável por parte do sucesso em minha vida pessoal e profissional. Foram muitas as portas abertas devido à facilidade que eu ganhei de dominar as letras.

 

Professora LEOCÁDIA, nada que eu escreva aqui será suficiente para mostrar o quanto sou-lhe grato por investir o seu precioso tempo na recuperação de um aluno rebelde, pela sua dedicação, perseverança e, principalmente, por ter acreditado em mim mais do que eu mesmo.

 

Faço-lhe aqui uma merecida homenagem e torno pública a eterna dívida de gratidão que tenho para com a Senhora.  Muito obrigado de todo o meu coração.

 

Seu ex-aluno Mário Sérgio

 

15
Mar11

Estradas fantásticas - Serra do Rio do Rastro

Mário Sérgio Figueredo

A Serra do Rio do Rastro está localizada no sul do estado de Santa Catarina. É cortada pela rodovia SC-438, onde se tem uma espetacular vista da serra. Com muitas matas e cachoeiras, é um dos cartões-postais do estado. Localiza-se no trecho entre os municípios de Lauro Müller e Bom Jardim da Serra, a mais de 1460 metros de altitude. Um mirante localizado em seu topo proporciona uma estonteante visão, capaz de tirar o fôlego de qualquer mortal.


Vista aérea da parte mais sinuosa da SC-438

 

O percurso da rodovia SC-438 é caracterizado por subidas íngremes e curvas fechadas, bem como pelos seus quiosques, ótimos locais para desfrutar a paz proporcionada pela natureza. Coberta pela mata Atlântica, com uma fauna bem diversa, com varíos tipos de felinos de pequeno, médio e grande portes, de macacos (bugios, macacos-prego, saguis), quatis, pacas, mãos-peladas, tatus, tamanduás e iraras, que são animais comuns numa mata atlântica preservada. Também há uma avifauna composta de aguias chilenas, tiês-sangue, tucanos, araras, papagaios etc. (Fonte: Wikipédia)

 

Sequência de curvas fantásticas

 

Em certa ocasião penoitei na cidade de São Joaquim (SC) e à noite, umas 21 horas, desci do quarto para tomar um ar. Sentei-me em uma das cadeiras que tinham na frente do hotel e comecei a conversar com um senhor septuagenário que trabalhava como guardião do hotel no período da noite/madrugada, enquanto tomávamos chimarrão.

Contou-me ele que quando mais novo era tropeiro com mulas, e fazia o transporte de víveres da capital até o planalto através de uma trilha onde mal passava uma mula de cada vez - não raro, contou ele, perdia-se alguns animais que tropeçavam ou escorregavam, caindo no precipício, morrendo e perdendo a preciosa carga - essa trilha hoje é a SC-438, que nos oferece uma sequência de curvas fantásticas na subida/descida da montanha.

 

Localização

 

Ao viajar pelo Sul, programe sua viagem para passar por essa serra, seguramente valerá a pena.

 

18
Fev11

Estradas fantásticas - Passagem de Stelvio

Mário Sérgio Figueredo

 

A Passagem de Stelvio (em italiano: Passo dello Stelvio) é um trecho de rodovia localizada no norte dos Alpes italianos de Bormio, dentro do Parque Nacional de Stelvio, quase fronteira com a Suiça, a 2.757 metros de altitude em relação ao nível do mar.

 

Vista aérea do trecho de subida da montanha

 

A estrada original foi construído entre 1820 e 1825 pelo Império Austríaco para ligar a antiga província austríaca da Lombardia, com o resto do país. Suas sessenta Curvas fechadas são um desafio para os motoristas, mesmo os mais preparados. Até Stirling Moss saiu da estrada durante um evento de carros antigos dos anos 1990, provando a todos que essa estrada merece muito respeito por quem quer que seja que ouse trafegar por ela.

 

De moto essa estrada deve ser saborosíssima

 

Localização geográfica - a noroeste da cidade de Trento

 

 

18
Fev11

Estradas fantásticas - Inversão de tráfego em Hong Kong

Mário Sérgio Figueredo

Conhecendo um pouquinho da história de Hong Kong o leitor entenderá melhor o por que da necessidade dessa magnífica obra:

 

Para defender os interesses comerciais que a Inglaterra tinha na região asiática, em 1841 o exército inglês ocupou a ilha onde existe hoje a cidade de Hong Kong, tornando a região território inglês e criando um porto livre que funcionarva como um entreposto  comercial inglês.

 

Localização geográfica

 

A ocupação perdurou por 156 anos, até que em julho de 1997 o território foi devolvido ao governo chinês. Por causa dessa ocupação a ilha foi desenvolvida dentro dos costumes ingleses, o que inclui a mão de direção invertida, ou seja, o motorista fica no lado direito do veículo e os mesmos trafegam pela esquerda da via, o oposto da nossa, o que conhecemos aqui como "mão inglesa".

Ponte inversora de tráfego

 

Como em toda a região nos arredores da ilha prevalece a mão de tráfego tradicional, como conhecemos, as estradas que ligam o continente à ilha, em algum momento tem que propiciar a inversão da mão de tráfego. Para que isso ocorra de forma normal foram criadas algumas "pontes inversoras de tráfego" onde o motorista entra trafegando pela mão direita e sai do outro lado trafegando pela mão esquerda da via.

Vista aérea que dá uma dimensão exata da obra

 

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